Expedição inédita ao universo da fé indiana

Um dos muitos paradoxos do milênio que se inicia sob um notável domínio tecnológico é a expansão de diversificadas buscas espirituais. Nada menos que quatro longas recentes se debruçaram sobre a questão, seja do ponto de visita individual ou coletivo: Santo Forte, de Eduardo Coutinho, Fé, de Ricardo Dias, Milagre em Juazeiro, de Wolney Oliveira e O Chamado de Deus, de José Joffily. Logo, mais um título se somará ao fluxo das indagações da fé: A Experiência do Indizível, de Breno Kuperman, produção independente voltada para a TV, dividida em seis programas de 24 minutos cada. Detalhe: seu campo de investigação será a Índia, com foco em manifestações do budismo e do hinduísmo. O aparente exotismo do projeto tem explicação. Breno Kuperman admite que teve duas paixões na vida profissional - filosofia e cinema - nesta ordem. Foi professor de filosofia na UFF e na PUC, no Rio, com mestrado na prestigiada faculdade de Louvain, na Bélgica. Ao voltar, no final dos anos 70, a segunda paixão - o cinema - acabou sobrepondo-se à primeira. Trabalhou no Departamento de Produção Cultural da Embrafilme, foi produtor executivo dos longas Tensão no Rio, de Gustavo Dahl, e Cavalinho Azul, de Eduardo Escorel, e de vários documentários dirigidos por Washington Novaes, além de Duas Semanas no Santa Marta, de Eduardo Coutinho. É professor de cinema na UFF, e soma à direção de inúmeros institucionais, dois curtas, Eu sozinho e Estrelas de Papel. Em 1998, dirigiu o média-metragem, Formigas e Tao, com insetos filosóficos, prova de que a primeira paixão podia estar em segundo plano mas não excluída de sua vida. Aliás, ressalta Breno, a filosofia sempre esteve bem presente como instrumento de conhecimento e busca pessoal. Em dezembro do ano passado, ele deu a partida na reunião das duas paixões, e viajou para a Índia. Com câmera digital em punho, visitou oito cidades e filmou 20 horas de um material que será a base de A Experiência do Indizível. Voltou encantado e disposto a aprofundar a pesquisa. "A espiritualidade faz parte do cotidiano de milhões de pessoas, de uma forma muito diferente da que conhecemos. Na Índia, a verdade não é a razão, e o conhecimento está sempre associado ao crescimento espiritual. E este exercício impregna o cotidiano das pessoas - das mais comuns aos saddhus, que levam uma vida ascética, renunciam a tudo e a todos, dedicam-se inteiramente ao desenvolvimento espiritual, muitas vezes impondo-se desafios sobre-humanos que podem envolver até a mutilação dos corpos", diz. Os saddhus serão tema de um dos programas da série, enquanto outros focalizarão a tradição hinduísta, as escolas devocionais, a prática budista através de personagens populares e em comunidades, e por fim, o budismo tibetano. Se puder agilizar a produção, incluirá também o grande evento do Kumbha Mela, que se realiza de 12 em 12 anos e reúne 30 milhões de fiéis na cidade de Allahabad em janeiro. Embora o tema do projeto possa parecer exótico na terra do padre Marcelo e do bispo Macedo, Breno Kuperman, o primeiro brasileiro a filmar o budismo na Índia, assegura que sua abordagem não será folclórica: "A Índia é um país de quase um bilhão de pessoas e o que segura a população é uma fé profunda, que nada tem de intelectual - é parte integrante da vida". Depois deste primeiro contato, Breno prepara-se para mais uma viagem, em que registará as imagens definitivas, que define como as de "um brasileiro olhando para a Índia". E observa: "O Brasil vive uma enorme explosão espiritual, cujo sentido profundo talvez só seja compreendido sociologicamente daqui a 30 anos. O que se constata hoje é a espantosa entrega das pessoas a mil caminhos. Tudo isso me interessa, mas decidi conhecer o berço do budismo e das manifestações mais arcaicas da espiritualidade. Acredito que o documentário poderá fornecer elementos para ampliar as discussões". Com orçamento de R$ 450 mil, A Experiência do Indizível encontra-se em fase de captação, e está inscrito na Lei Rouanet. Quem quiser conhecer melhor o projeto pode entrar em contato com Breno Kuperman em sua produtora, Cena Tropical, telefones 21-537-4562 / 266-4714, ou pelo e-mail cenatrop@ax.apc.org.

Agencia Estado,

12 de janeiro de 2001 | 10h38

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