Êxito inesperado de Bezerra de Menezes deu início à safra

Análise

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2010 | 00h00

A leva atual de filmes espíritas não se dá por acaso. Afinal, em 2010 comemora-se o centenário de Chico Xavier, o mais amado médium brasileiro. Assim, não poderiam deixar de chegar ao cinema a cinebiografia do personagem assim como a adaptação do best seller psicografado Nosso Lar, que estreia hoje.

Também é verdade que a safra mediúnica já havia sido anunciada pelo sucesso de Bezerra de Menezes - O Diário de Um Espírito, de Glauber Filho e Joe Pimentel, o filme cearense de maior público em toda a história. Isso comprovou a produtores e cineastas a existência de uma plateia cativa para esse, digamos, gênero cinematográfico.

Nosso Lar, de Wagner de Assis, talvez seja entre eles o mais ostensivamente consolatório, pois, segundo o suposto relato do médico André Luiz de sua experiência no além, a vida por lá continua quase igual à deste vale de lágrimas. A alma trabalha, reside e se locomove; reencontra-se com seus entes queridos, evolui, convive com os seus semelhantes e habita uma cidade que lembra muito a ordenação arquitetônica de Brasília. Levando-se em conta o que dizia Spinoza - que a religião se situa no espaço preciso entre o temor e a esperança - compreende-se muito bem a força desse tipo de ideia e o conforto que oferece aos crentes.

O estudo desse tipo de conforto é a base do documentário As Cartas Psicografadas de Chico Xavier, de Cristina Grumbach. No caso, a documentarista não toma partido religioso. Ela apenas registra, e procura compreender, os efeitos que essa fé produz sobre as pessoas. Sobre um tipo determinado de pessoa, aliás, formado por pais e mães que conheceram a mais dolorosa das experiências, a de perder um filho. Essa inversão da cronologia natural da morte produz um tipo de luto difícil de terminar.

Existe ainda outra maneira de utilizar as ideias espíritas de maneira cinematográfica. Por exemplo, em O Último Romance de Balzac, Geraldo Sarno mescla a crença de que o escritor francês teria ditado um novo livro depois de morto à encenação de uma de suas obras mais conhecidas - esta, por certo, escrita quando vivo - A Pele de Onagro. O curioso é que A Pele de Onagro fala do desejo fáustico por poder, dinheiro, conhecimento, e do pacto com forças obscuras para conseguir tudo isso. Aqui, o documentarista não precisa se alinhar a uma crença para explorar (no bom sentido) as suas possibilidades dramáticas.

Procedimento também adotado por Sylvio Back em sua Guerra do Contestado - Restos Mortais. Na construção do filme, ouvem-se historiadores e gente do povo falando sobre o conflito. E, ao lado dessas testemunhas habituais, ouvem-se também "depoimentos" de participantes da guerra tomados a partir de médiuns. O expediente de Back foi muito criticado, por heterodoxo, mas ele dá ao relato uma dramaticidade que de outra forma ele não teria. Basta supor que os médiuns sejam, talvez, atores para que tudo seja restituído ao nosso plano terrestre. E funcione do mesmo jeito na tela. No caso, a única crença indispensável é no poder do cinema em evocar o espírito de causas passadas.

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