Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Exílio da alma, a obra de Babenco

Autor ganha uma coleção impecável, na qual falta somente Ironweed

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2010 | 00h00

É quase todo Babenco que está sendo resgatado em DVD, numa iniciativa do próprio autor. Há tempos Hector Babenco se incomodava com o fato de as pessoas lhe cobrarem pela existência de seus filmes em DVD. À frente de uma pequena produtora - "a produtora de um homem só", como diz -, ele nunca se decidia a encarar o desafio, que antecipava desgastante, de salvaguardar a própria obra. Babenco estava na Escócia, dando uma palestra, quando foi a uma loja em Edimburgo. Encontrou os filmes da maioria dos cineastas - dos "autores" - de sua geração, mas nada dele. Decidiu-se. Em parceria com a distribuidora Europa, está lançando uma coleção com oito discos. Custa R$ 229.

Contém "quase" tudo que fez. Como há um par de anos, quando o Canal Brasil exibiu seus filmes, Babenco não conseguiu a liberação de Ironweed, que adaptou do romance de William Kennedy, com Jack Nicholson e Meryl Streep. A colocação dos filmes na TV paga não envolveu investimento em dinheiro. Babenco lança em DVD os filmes remasterizados, com uma qualidade de som e imagem que não tinham na época. Ele próprio forneceu os filmes e o material gráfico. A Europa fornece principalmente a estrutura de distribuição, o que não é pouca coisa. No cinema e em DVD, a empresa atinge nichos de arte e o público massivo. "Eles me disseram que colocam os filmes até nas Lojas Americanas, embora eu não saiba se esse é o melhor local para o público de O Beijo da Mulher-Aranha. Só se eles acharem que o beijo é da mulher do Homem-Aranha."

Ele não ri da própria piada porque talvez não seja mesmo uma piada, mas constatação. Esse público eclético é interessante porque o próprio Babenco nunca teve formação de cinéfilo. "Não sabia que havia um cinema para poucos e outro para a maioria. Via ambos nas mesmas salas, na Argentina." O cinema italiano nutriu-o, mais do que Ingmar Bergman. Hoje ele tem maturidade para dizer isso e para refletir que o opus final de Mario Monicelli, seu suicídio no começo da semana, foi a última mise-en-scène do "velho". Arte e vida combinaram-se, afinal. Emocionante. Ele agradece aos amigos. O produtor norte-americano Saul Zaentz cedeu Brincando nos Campos do Senhor, a Sony cedeu Carandiru. Só os produtores de Ironweed foram intransigentes. "Tentaram cobrar uma fortuna, o lançamento não comporta esse exagero. Ironweed, mais uma vez (como na TV paga), ficou de fora." Reavaliando sua obra, Babenco se surpreende diante dos filmes que realizou. Sabe que está lá, em cada um deles, mas é outro Babenco. "Se desgarraram de mim, criei outras peles. Nunca é a mesma coisa."

Se há uma coisa que Babenco reconhece, são as dívidas. Conta que não tinha formação nenhuma e fez o primeiro longa, O Rei da Noite, de 1975, na cara e na coragem. "Paulo José e (o roteirista) Jorge Durán foram essenciais. Foi o Paulo que me ensinou a dirigir." Tanto isso é verdade que, no fim da filmagem, Marília Pêra cobrou de Babenco. "Você me deve um filme, neste eu fiz o que o Paulo (José) me mandou." Babenco pagou a dívida, e com juros, ao oferecer a Marília "aquele" papel em Pixote, A Lei do Mais Fraco.

O Rei da Noite é um grande filme e é mais dele do que Babenco talvez pense. "Misturei Nelson Rodrigues com Dalton Trevisan. O filme é uma soma dos dois. Pode ser grotesco, mas não tem facilidade." A caixa de Babenco oferece inúmeros extras, mas nem O Rei da Noite nem Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia têm making of(s). Os demais filmes todos têm. Os de Pixote e Mulher-Aranha foram feitos depois. O que mais chama a atenção do próprio Babenco, ao (re)pensar seus filmes, é o fato de que são atípicos no panorama do cinema brasileiro. "Meus filmes não se parecem uns aos outros, são falados em diversas línguas - português, espanhol, inglês. São produtos de um exílio, eu sou um exilado."

Durante muito tempo, ele se sentiu um estrangeiro no cinema brasileiro. Queria ser aceito, falar com seus pares, mas encontrava resistência no "outro". Hoje, reconhece que a rejeição foi construída em sua cabeça. É um solitário que tem resposta até para a mais improvável das perguntas. Se pudesse mudar alguma coisa em sua obra, seria o quê? "O final de Coração Iluminado." É outro de seus filmes favoritos, e um dos mais pessoais. Na ficção de 1998, o personagem mata a mulher amada e ela é interpretada por Xuxa Lopes, com quem Babenco era casado. "Há um ano e meio atrás, estava no banho quando me caiu a ficha. Poderia ter terminado o filme com ele caminhando em direção a ela e os dois sentados, olhando para o mar. Seria um final não conclusivo, em aberto, e seria bacana."

Na época, Babenco estava encerrando o capítulo do câncer linfático que quase lhe custou a vida. Tinha medo de lidar com o próprio desejo. O sexo era interdito. "Matei o desejo para preservar a vida e hoje tenho essa visão de que não precisava ter feito isso na minha ficção." Fala sem dor, sabendo que o reconhecimento dos passos em falso não invalidam seu esforço. A obra é sólida. Qual será o próximo filme? "Não sei." Nos últimos tempos, estava comprometido com seus filmes antigos, com o resgate da obra. Dirigiu teatro - a peça Hell está em cartaz até dia 19. "Gostei do texto de Lolita Pille, a Bárbara (Paz, sua companheira) se empenhou no papel. Foi uma experiência gostosa." Enquanto isso, ele rumina qual será o próximo filme. Basta citar Pixote e Carandiru para constatar que Babenco possui uma direção de cena muito forte. Quando amadurecer algum projeto e tiver o dinheiro, ele vai filmar. Quem vir, viverá.

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