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Exilados sem língua materna

O encontro de dois amigos exilados aconteceu em Paris, no outono de 1981.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2013 | 02h12

Alberto L. era franco-argentino; Jaime D. era cubano e queria ser escritor, mas se recusava a falar e a escrever em espanhol. Naquele outono ele pediu para que eu lesse o manuscrito de um romance. Li o texto em francês e disse que Alberto também devia lê-lo, pois meu amigo argentino era bilíngue e podia avaliar melhor a linguagem da narrativa, que me pareceu intrincada e, em certas passagens, obscura.

Eles se encontraram no Café des Beaux Arts e depois Alberto me confidenciou:

"O começo da nossa conversa foi um monólogo. Disse a Jaime que eu tinha lido o manuscrito porque tu gostaste do romance. Disse que foi o primeiro manuscrito que li na minha vida de leitor e quase com certeza o último. Não sou um escritor frustrado, eu disse, sou um leitor de bons livros e isso basta. Depois fiz um comentário sobre o romance: uma história assombrosa e algo alegórica sobre a ditadura de Fulgencio Batista; uma história que, na minha visão pessimista, talvez pudesse ser lida em perspectiva. Comentei outras coisas que me interessaram e disse: Você escreveu diretamente em francês, o que não deixa de ser uma ousadia ou uma façanha. Mas a linguagem do manuscrito parece órfã, como se fosse uma tradução de um texto sem uma língua de origem. Um bom tradutor talvez possa cortar os excessos de preciosismo, porque seu estilo é um pouco pomposo. Não é preciso dizer que gostei muito do romance e que eu sinto inveja de você. Percebi que tinha exagerado, mas Jaime reagiu bem e disse que ia pensar nas minhas observações. Depois me agradeceu com uma única palavra: gracias. Um agradecimento seco, com a mesma voz que pediu uma dose de conhaque ao garçom. Teu amigo cubano não foi caloroso comigo. Talvez seja desconfiado quando se encontra com um desconhecido. Mas acho que ele vai reescrever o manuscrito com um tradutor".

Como conseguiste isso?, perguntei.

"Duas pessoas banidas de sua pátria se entendem", disse Alberto. "Quer dizer, se entendem quando não conversam sobre política, um assunto que queima o coração. Falamos um pouco sobre a nossa infância, e bem mais sobre nossas leituras. Nossa infância quase nada tem em comum. Infâncias muito diferentes, como são diferentes os países da América Latina. Ele morou em lugares paupérrimos de La Habana, bairros que não têm ou não tinham equivalentes em Córdoba. Começou a trabalhar ainda menino, e eu só tive que trabalhar quando me diplomei em ciências econômicas. Jaime não conheceu os pais deles. Eu convivi intensamente com os meus até os 11 anos de idade. Nossas leituras são mais ou menos afins, com preferências diferentes. Conversamos mais de uma hora sobre essas leituras e discrepâncias. Quando eu disse que devia ir embora, ele tamborilou nervosamente sobre a mesa, como se os dedos golpeassem o teclado de uma máquina de escrever. Jaime quis pagar a bebida, mas acho que blefava. Disse a ele que eu era um funcionário bem remunerado do Crédit Agricole, mas teria preferido ser um escritor e levar uma vida modesta. 'Não acredito nisso', reagiu Jaime, 'a vida modesta é geralmente uma vidinha de merda, e eu não sou esse romântico'. Concordei, para não ser indelicado. E também porque ele falou com raiva. Não protestou quando eu paguei a conta; nos despedimos com um aperto de mão. Jaime pegou o metrô para Barbès, e eu, para Gare d'Austerlitz".

Nenhum dos dois se empenhou em manter uma amizade. Eram amargos demais com o passado, e talvez discordassem sobre a revolução cubana.

O tempo e a distância nos separaram. Sei que ainda moram em Paris. E só dez anos depois conheci o destino do manuscrito de Jaime D.

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