Exercícios para um olhar

Andrés Di Tella propõe uma visão original sobre seu país, a Argentina

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2012 | 03h09

Um longo programa de filmes de Andrés Di Tella - Reconstituição do Crime da Modelo, Macedônio Fernández, Montoneros, uma História e Golpes de Machado - será seguido por um debate com o cineasta, no CCBB, mediado pelo diretor do Festival É Tudo Verdade, o crítico Amir Labaki. Ver estes filmes proporciona uma experiência cinematográfica singular. Conversar com seu autor deverá ser muito interessante.

Montoneros, por exemplo. Seria um filme a mais do rico manancial do cinema de denúncia que nossa vizinha, a Argentina, muito mais do que nós, tem se incumbido de criar, como que tentando digerir a tragédia da ditadura militar? Em certo sentido, sim. Mas a história do grupo armado é filtrada quase exclusivamente pelo ponto de vista de uma de suas militantes, Ana, o que dá tom intimista ao relato.

Na contracorrente da tendência a ampliar os limites tanto do heroísmo quanto da vitimização dos protagonistas da luta armada, o longo depoimento de Ana, entremeado aos de seus ex-companheiros, surpreende pela franqueza. Ela se refere, em especial, ao estranho sentimento de culpa por haver saído viva de uma situação em que a maioria morreu. Pelo mesmo motivo, acabou vista por seu ex-marido como traidora. Como se fosse traição sair com vida da sinistra Esma (Escola de Mecânica da Armada), que servia de base para interrogatório e tortura. Esses tempos emergem com grande força de verdade desse filme que nunca tenta coroar personagens com a aura da perfeição e também não disfarça o terrível período histórico de que foram protagonistas.

Mais interessante ainda é Hachazos (Golpes de Machado), trabalho de 2004 que repõe em cena a figura de Claudio Caldini, cineasta experimental, autoexilado durante dez anos na Índia. Tido como excêntrico, ou louco, Caldini agora trabalha como caseiro numa chácara. A narração diz que todas as posses de Caldini cabem em sua maleta de couro: anotações, papéis espalhados e, acima de tudo, seus filmes, dos quais vemos alguns trechos.

O curioso é que, em Golpes de Machado, o próprio Di Tella assuma uma linguagem cinematográfica mais experimental, como se dialogasse diretamente com o material de que é feita, não apenas a obra, mas a personalidade do seu entrevistado. Ficamos sabendo que essa afinidade com o sistema do outro não se dá por acaso: "Caldini foi o primeiro cineasta que vi em ação", diz Di Tella. Vemos o resultado dessa parceria. Um dos filmes de Caldini mostra uma mulher sendo enterrada viva ("Num tempo em que muitos na Argentina recebiam sepulturas anônimas", diz a voz em off). Quem joga a terra sobre o corpo é ninguém menos que Andrés Di Tella, então um garoto, servindo de assistente a Caldini.

Golpes de Machado realiza o ato caridoso de exumar todo um ramo da cinematografia argentina sepultado, o experimental, através de um dos seus representantes. É também uma maneira de reorientar o trabalho do próprio Di Tella pela volta a uma de suas raízes. "Depois deste filme, não farei mais cinema do mesmo jeito", ele diz. É para se acreditar. Montoneros e Golpes de Machado mostram duas reações possíveis à ditadura militar. Antagônicas? Complementares?

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