Exercício teórico a serviço da criação

O trabalho de Rogério Sganzerla como crítico - escreveu para o Estado e outras publicações - é reunido em dois volumes que atestam o peso dessa experiência para o desenvolvimento de sua arte

J.C Ismael, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Num dia qualquer de dezembro de 1963, eu estava sentado na redação do Estado, na antiga sede da Rua Major Quedinho, quando Décio de Almeida Prado (1917-2000), editor do Suplemento Literário, fez um sinal para me aproximar. Com a habitual circunspecção carinhosa, pediu-me opinião sobre o texto que recebera de um jovem, cuja pouca idade parecia incompatível com a originalidade e o vigor das opiniões lá registradas. Depois da leitura, igualmente impressionado com a qualidade do trabalho, que não me pareceu apócrifo, avalizei a publicação.

O autor desconhecido chamava-se Rogério Sganzerla, que, do alto dos seus 17 anos, logo se firmaria como um ensaísta de primeira a partir da crítica de estreia naquele suplemento (veja texto abaixo), sobre o filme Os Cafajestes, publicada em duas partes, nas edições dos dias 4 e 11 de janeiro de 1964. Ecoando o velho lugar-comum, o resto é história. E que história! Anos mais tarde, praticamente abandonando a crítica, e desde a filmagem de O Bandido da Luz Vermelha, no mítico ano de 1968, seguido, em 1969, por A Mulher de Todos, Sganzerla integrou o reduzido time de diretores brasileiros para quem a marginalidade jamais deveria ser oportunista, colonizada, mas atada aos princípios estéticos de um cinema inimigo da banalidade, do escapismo, do gratuito, do óbvio.

Sganzerla sempre dizia que o cinema não lhe interessava, mas sim o ofício de profeta, certamente no sentido de que os profetas verdadeiros não preveem o futuro: querem mudá-lo. Fez 20 filmes, incluindo curtas-metragens. Seu último trabalho, O Signo do Caos, de 2003, um ano antes de morrer, atinge os limites de um experimentalismo enlouquecido, retrato de um Brasil estilhaçado, entregue ao cansaço da inútil busca por si mesmo.

A exemplo de críticos da cultuada revista Cahiers de Cinéma, como Erich Rohmer, Claude Chabrol, François Truffaut e Jean-Luc Godard, Sganzerla migrou para o outro lado da câmera deixando uma herança teórica que, longe de ser datada, pode ser usufruída como estimulantes aulas de cinema. Os que não tiveram oportunidade de conhecê-las, podem fazê-lo agora, graças à sua reunião nesses preciosos volumes, o primeiro dedicado às colaborações no Suplemento Literário, e o segundo a outras publicações.

Quem foi o Sganzerla crítico, que reflexões ele "transferiu" para os próprios filmes e quais os diretores que mais o influenciaram? Ele foi, antes de tudo, um crítico da cultura, basicamente da brasileira, e nesse sentido, o filme analisado também servia de carona para ele discorrer sobre suas teses libertárias. Localizar, em cada um dos seus trabalhos, quais conceitos teóricos lhe serviram de bússola para direcioná-lo como realizador é tarefa difícil, se não impossível. Sua obra está impregnada das mais diversas influências que vão desde Humberto Mauro e Orson Welles, até o cinema de autor da Nouvelle Vague representado pelos citados ex-críticos da Cahiers, especialmente Godard, por quem tinha veneração.

Três artigos publicados no Suplemento Literário em junho e julho de 1965 são emblemáticos para a compreensão de como Sganzerla imaginava, abstrações à parte, o filme ideal. O primeiro deles discorre sobre "os cineastas da alma", ou seja, o "cinema que pensa ou procura pensar", representado principalmente por Antonioni, Fellini, Bresson, Bergman, Visconti, Resnais.

Diz Sganzerla: "Exatamente como os romancistas tradicionais, os cineastas da alma relegam, de maneira sistemática, as aparências dos seres e objetos porque acreditam exclusivamente na alma humana e seus enigmas; não tanto indagando-a ou questionando-a, mas esquematizando-a em pensamentos originais." E adverte: o perigo de fazer literatura em filmes é dar-lhes uma roupagem pretensiosa, uma vivência literária, e não existencial, daí surgindo resultados estéreis e dramas abstratos, os quais, chamados de "profundos", na verdade não o são porque não é a câmera que revela o íntimo dos personagens, e sim os diálogos alimentados por clichês, que incluem a gasta constatação da incomunicabilidade, a busca desconsolada da Verdade, etc. Em resumo: o cinema, por ter uma linguagem própria, aprimorada ao longo de décadas, não pode e não deve apropriar-se de outras linguagens, sob pena de se consagrarem maquinações demagógicas para cativar o espectador. Duas exceções, porém, são anotadas: o Antonioni de A Aventura e o Resnais de O Ano Passado em Marienbad.

E quanto aos "cineastas do corpo", serão igualmente predadores da verdadeira linguagem cinematográfica? Em termos, responde Sganzerla. Não são exemplos de excelência, mas ao contrário dos "cineastas da alma", manifestam amor pelo cinema, pela variedade de seus modos expressivos. Representantes "do corpo" como substituto dos diálogos, Hawks, Fuller, etc., captam as aparências que podem ser enganosas. Godard é citado como o expoente dos cineastas que privilegiam o corpo porque "em essência propõe um universo que é o do cinema mesmo - mais do que propor, vive-o -, os seres e objetos vistos de fora, por meio de um olho sensorial, a câmera".

Da falta de uma fronteira rígida entre o que significa filmar "o corpo" ou a "alma" pode resultar uma fusão dos dois estilos, aparentemente opostos, num único filme ou em filmes diversos do mesmo diretor. Dessa fusão, nota Sganzerla, surgem títulos extraordinários como Noites de Circo, Scarface, Marienbad, Intolerância - o que não significa que todos os filmes de seus diretores sejam igualmente notáveis representantes do cinema moderno, definido por ele como "uma questão de distância... entre câmera e personagens, ou de equilíbrio entre personagem e ator, drama e comédia, realidade e ficção...", sem que haja predomínio de uma outra opção. Numa palavra: harmonia.

O lendário crítico inglês Kenneth Tynan gostava de repetir que os críticos conhecem a estrada, no entanto são incapazes de dirigir o veículo. Sganzerla desmente-o: não só percorreu a rota da crítica sem se perder nos atalhos da mesmice, como assinou filmes sem os quais a história do cinema brasileiro seria menos colorida.

J.C. ISMAEL É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE CINEMA E CIRCUNSTÂNCIA (BURITI/CIA. EDITORA NACIONAL,1965) E ALAN WATTS E A SAGRAÇÃO DO CAMINHO (T.A. QUEIROZ, 1988)

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