Exercício de percepção a ser mais apurado

O terceiro espetáculo de dança do 14.º Cultura Inglesa Festival, Branco, de Lua Tatit, apresenta uma situação que vem se manifestando com bastante frequência na dança contemporânea: está muito bem resolvido no que cerca o corpo, mas não no corpo. Sua ligação com a artista inglesa escolhida como exigência do edital, Rachel Whiteread, felizmente se faz mais como uma ignição do que propriamente em uma relação com as suas obras, embora as 14 mil caixas de papelão de Enbankment (2005-2006) estejam citadas, bem como a quina de Untitled (Apartment), de 2001.

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

Há uma articulação requintada entre o espaço cênico criado por Edith Derdick e o espaço sonoro de Dudu Tsuda. O cenário materializa um canto nascido de uma geometria de desencaixes ? que se separa da geometria euclidiana da série Espaços Virtuais: Cantos (1967-1968), de Cildo Meireles. Derdick monta desproporções sutis entre as angulações das "paredes" do canto que criou, e as revela no tamanho e na forma que a sua projeção toma no chão. Fica no chão, lá amplificado, aquilo que a percepção não identifica de imediato.

A iluminação de Karine Spuri consegue, em alguns momentos, fazer desse espaço que parece estar dentro das duas "paredes" também um lado de fora porque os vetores que essas mesmas duas paredes criam fazem outros "dentro", em outras direções do palco. Meio que um móbile, que vai alternando os papéis entre o espaço que preenche e o que é preenchido, entre o espaço dentro e o que circunda.

A cenografia conversa com a trilha/instalação audiofônica de Dudu Tsuda. Ambas falam a mesma língua, aquela interessada em trabalhar o negativo do filme fotográfico. Um negativo que fica invisível quando a foto se apresenta, mesmo se sabendo que foi ele que permitiu que aquela foto pudesse ser revelada.

Esse negativo que podemos reconhecer nas formas reveladas, estrutura os ambientes sonoros que vão surgindo. Os sons do palco parecem estar nas costas da plateia, e não na cena na qual estão sendo produzidos, e o piano (preparado), bem ali, na frente do palco e do público, meio que desaparece porque se transmuta em uma escultura sonora.

As mágicas de Dudu Tsuda coreografam o ambiente ao desfazer a separação espacial entre nós e as intérpretes. Como não há mais dentro, também não há mais fora. E os espaços sonoros se apresentam de acordo com vetores que não param de se mover.

Paredes. Rachel Whiteread, da geração Young British Artists, trabalha preenchendo vazios dentro ou em torno dos objetos e dos espaços. Suas obras são da ordem do "estranho familiar", uma vez que nos revelam o avesso do que conhecemos. A arquitetura que Derdick e Tsuda montam também. A certa altura, quando os corpos das intérpretes lá se encostam, uma das paredes revela-se molde dos corpos que nela se apoiam.

O figurino, assinado por Monayna Pinheiro, está surdo para essa conversa. E os corpos das duas intérpretes não conseguem produzir o que indicam, aqui e ali, querer mostrar. Ana Dupas parece não ter ainda entrado no trabalho, e Lua Tatit, sozinha, não pode fazer nascer os espaços entre ? no caso, seriam aqueles espaços como se fossem o negativo fotográfico do que vai se tornar visível. Quem sabe um exercício de percepção mais apurado com o que já está lá as ajude a sair do impasse no qual estão mergulhadas no momento.

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