Exercício contra a mesmice

Receitas e Dúvidas, projeto de Gustavo Bittencourt, Sheila Ribeiro e Wagner Schwartz é uma terra de passagem

O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h16

Crítica: Helena Katz

Como em outras linguagens artísticas, também na dança contemporânea veio se instalando um eco de procedimentos que tende a despotencializá-la. Umas obras vão se assemelhando às outras, promovendo um excesso de familiaridade que traz o risco de tornar a percepção preguiçosa. Receitas e Dúvidas, projeto de Gustavo Bittencourt, Sheila Ribeiro e Wagner Schwartz é uma terra de passagem nesse cenário: bifurcação em um caminho sem glórias e sem escombros. Com uma delicadeza com a qual não se encontra muito por aí, faz o mundo ficar mais vasto.

Estreado no ano passado, foi recém-apresentado no Modos de Existir, no Sesc Santo Amaro, projeto de Marcos Villas Boas que, nesta segunda edição, dedicada às parcerias artísticas, contou também com a curadoria de Maíra Spanghero.

Na produção recente, marcada pelo desconhecido familiar, Receitas e Dúvidas inscreve-se como um exercício do estranhar e, por isso, exige o difícil pré-requisito de retirar os óculos fixos do hábito. É preciso estranhar para conseguir se entranhar no emaranhado denso de cruzamentos do qual é feito.

O começo é primoroso e se oferece como uma lente de apoio para o trabalho. Gustavo Bittencourt adentra o espaço vestindo o figurino 'despojado' dos yuppies dos anos 1980, e de máscara. Inicia uma fala que não se sabe se acontece naquele momento ou está gravada, porque a máscara impede essa observação. Dúvida. Máscara de herói dos primórdios do videogame cruzado com festejo popular de algum pueblo latino-americano. Ele avisa: "Ninguém está ali".

Então, quem está lá, dançando na nossa frente? Os mortos que sua fala traz para a cena - a avó da Sheila e o pai da Elisabete Finger? Ou devemos nos lembrar do risco do ato de observar: "Os três nunca se observam para não destruir aquilo que está sendo construído". Dúvida.

Escondido em uma aparente descontinuidade, um eixo de trans-zombarias que se perfuram vai aparecendo e plantando um sorriso nas nossas máscaras. Começa o passeio, é preciso atar o cinto de segurança, mas ele não pode ser postiço, daqueles que banalizam os significados e apagam o interesse. Porque é preciso seguir adiante sem ficar olhando sobre o ombro para esbarrar no sonho de adolescente/coisas que caem do céu, Philip Glass/Elza Soares/ópera, dança das cobras/dança moderna, cigarro de palha//iPhone, e no gritar Deus em iorubá para ninguém entender, e então, estancar na beleza da síntese poética para uma das discussões tão em moda: "A multidão é um som digital que sai das caixas". Receita perfeita.

O karaokê de Ray of Light, da Madonna (1998), que também é cruzamento (de trance/tecno/pop/disco), permite a Wagner cantar "And I feel/Like I just got home" (E eu sinto/Como se acabasse de chegar em casa). O tango que dança com Sheila também não está ali. Receitas e Dúvidas tenta fluir por nossa artéria entupida de mesmices, enfrentando a dificuldade de distribuir por lá as incertezas que tentamos fingir que não fazem parte. Sua receita vem em porções menores encharcadas de dúvidas. Com ela, podemos desencavar uma conversa que já estava lá, na dança contemporânea, olhando fixamente na sua direção para observar o além. Dúvida: descobrir é igual a desencobrir?

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