Exemplos de conquistas da bienal de Lyon

Evento francês juntou este ano 400 programadores de 27 países para apresentar 'uma nova geração de criadores'

Helena Katz ESPECIAL PARA O ESTADO LYON, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

Festivais de dança existem aos montes pelo mundo, cada qual com a sua característica. O de Lyon é bienal e há 28 anos é dirigido por quem o projetou: Guy Darmet, que dele se despede nessa, que foi a sua 14ª edição. Ao longo desse tempo, foi lá definindo um perfil bastante distinto da maior parte dos outros festivais. Não somente por estender-se por um tempo longo (três semanas), nem tampouco por haver escolhido ser temático, mas pelo tipo de programação que foi sendo burilada.

Essa programação é responsável pela estabilidade do seu sucesso em Lyon, a cidade que a abriga. Um sucesso que só pode ser corretamente avaliado quando colocado face ao que sucede no resto do ano por lá. Quem dirige a Bienal de Dança dirige também a Maison de la Danse, o teatro da cidade que programa dança o ano inteiro. A vinculação da programação da Bienal à da Maison de la Danse vai formando o público local, mês após mês, de modo que uma atividade irriga a outra. Sendo o mesmo profissional a comandar as duas instituições, não existe o risco de haver discrepância entre as duas programações, uma que se estende pelo ano todo e a outra, que ocorre a cada dois anos. Se antes a população de Lyon não mantinha vínculos fortes com a dança, agora responde por 95% do orçamento da Maison de la Danse, com os ingressos que adquire e lota o teatro o ano todo.

É uma cifra que espanta, nesse mundo onde muitos se queixam da falta de público para a dança. Mas há uma outra cifra, a da verba da Bienal de Dança, que surpreende ainda mais: ?7 milhões. Como se sabe que nos países da Europa Ocidental as verbas diminuem ou aumentam em uma relação muito direta com o balanço entre sucessos e fracassos apresentados, pode-se ter a medida dos acertos que Guy Darmet vem fazendo ao longo de sua carreira.

Para além da programação, que buscou reunir companhias que contemplassem todos os temas das edições que lhe precederam, a Bienal de "despedida" juntou 400 programadores de 27 países diferentes (com ênfase na Ásia e na Europa) para "vender-lhes" o que chama de uma "nova geração de criadores". O que significa isso? Em primeiro lugar, que durante 4 dos seus 25 dias de duração, a Bienal de Dança de Lyon investiu-se do papel de vitrine de uma "plataforma de difusão da dança francesa" que seja também "um trampolim de internacionalização" - a explicação oficial para essa ação de políticas públicas batizada como Focus Danse. Detalhe importante: isso acontece pela segunda vez na Bienal de Lyon.

Trata-se de uma ação política da maior relevância, tanto para os franceses como para a dança dos países para os quais os 16 espetáculos escolhidos para compor o Focus Danse 2010 serão exportados. A iniciativa é da própria Bienal e da Culturefrance, dirigida por Sophie Renaud. Aos dois se juntaram, desde a primeira realização, o Centre National de la Danse - CND (representado por Monique Barbaroux), o Office National de Diffusion Artistique de Paris (Onda, comandada por Fabien Jannelle) e a Nouvelle Agence Culturelle Règionale Rhône-Alpes de Lyon (NACRe, na pessoa de Isabelle Faure). O projeto conta ainda com a participação dos serviços culturais das embaixadas francesas e do Ministério da Cultura e da Comunicação da França.

A relevância do Focus Danse pode ser avaliada quando se monta o contexto que a dança francesa enfrenta: não há dinheiro suficiente para manter as estruturas já existentes e, ao mesmo tempo, abrigar os jovens que desejam chegar ao mercado; e não há público local em quantidade suficiente para sustentar as temporadas que as companhias de dança contemporânea necessitam realizar para se manter. A solução, para qualquer um que tenha noções muito básicas de economia, não é distinta da que regula outros produtos: há que desenvolver a exportação.

Os que ficam do lado de cá, importando a "jovem dança francesa", poderiam perceber que se trata de uma belíssima lição de políticas públicas de um país que joga fichas pesadas para que a sua dança não perca o espaço que já conquistou. Quem sabe, possa ser entendido como um exemplo oportuno para os que estão cegos pela pseudopolítica cultural que mantém a produção de dança brasileira em um campo de extermínio do qual alguns são temporariamente retirados para, em seguida, serem para lá devolvidos. Como todos se alimentam da esperança de serem os próximos escolhidos, a situação parece imexível, infelizmente.

Estética. Da Bienal de Dança de Lyon de 2010, talvez seja esse o legado mais potente: um festival de incontestável e crescente sucesso assume um papel decisivo na condução das políticas públicas para a dança do seu país. Mais um dos méritos a serem creditados a Guy Darmet, aquele que, durante todos esses anos, foi demonstrando um talento raro na habilidade de combinar visão política e capacidade administrativa. Sim, a maior parte do que a Bienal de Lyon promove está voltada para o que se chama de "grande público". Antes de julgar apressadamente essa opção estética, vale colocá-la em uma perspectiva ecológica, no sentido de relações de codependência, que situe a importância do que faz quando se pensa na sustentabilidade da dança.

QUEM É

GUY DARMET

CRIADOR DA BIENAL DE LYON

Formado em Direito, Darmet criou e dirige há 28 anos a Bienal de Dança de Lyon e a Maison de la Dance, teatro com dança durante todo ano, objetivando a formação de público local. Sua habilidade em administrar transformou o evento em vitrine para a difusão da dança francesa.

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