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Exemplar raro de revista de 1836 é extraviado pelos correios

Edição da 'Nitheroy' foi editada em Paris e teve apenas dois números lançados

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo,

17 de janeiro de 2012 | 21h30

O editor Sergio Cohn, da Azougue Editorial (editora carioca fundada em 2001 como extensão da revista literária Azougue), fez em dezembro uma bela descoberta. Localizou no sebo virtual Alfarrabista de Vila Mendonça um exemplar raríssimo da revista Nitheroy, de 1836, que contém o manifesto de Gonçalves de Magalhães que deu origem ao romantismo no Brasil.

Cohn ficou exultante. Planejava editar um fac-símile do manifesto em um livro singular - um projeto no qual conta a história da poesia brasileira de forma leve e ilustrando com documentos importantes e pouco acessíveis. "Muito se fala da poesia mimeógrafo e poesia postal, por exemplo, mas não é acessível um fac-símile delas", considera.

Perseguindo esse intento, Cohn amealhou uma lista de conquistas exemplares: reuniu desde coisas como o Pauliceia Desvairada (1922), de Mário de Andrade, até a primeira edição de Muito Prazer, do carioca Chacal (que teve apenas cem exemplares mimeografados em 1970).

A revista Nitheroy que Cohn recuperou em O Alfarrabista vinha coroar esse esforço. O editor então encomendou ao livreiro José Renato Almeida Lopes, do sebo O Alfarrabista, que enviasse para sua editora no Rio de Janeiro, por Sedex, o exemplar raro da revista. Aí acaba a história feliz e começa a história triste.

"Infelizmente, os Correios conseguiram extraviar o Sedex em que estava a revista, e esta se perdeu. Como você deve imaginar, os Correios estão lavando as mãos de fazer qualquer busca da encomenda, e um raríssimo e importante documento da literatura brasileira escafedeu-se", lamentou o editor. A reportagem entrou em contato com a Assessoria de Imprensa dos Correios em Brasília, que não conseguiu informar até o fechamento desta edição o que poderia ser feito.

O pacote com a preciosa revista foi enviado no dia 27 de dezembro. Já tem quase um mês. Um pedido de informações foi registrado por José Renato Almeida Lopes, do sebo O Alfarrabista, mas a resposta foi burocrática e o empenho demonstrado não deixou os envolvidos esperançosos. O embrulho (registrado no número SI371555593BR) pode ter ido parar num buraco negro de correspondências perdidas e sem possibilidade de resgate.

A revista Nitheroy foi publicada em Paris em 1836 e é considerada pedra fundamental do romantismo no País. No livro Três Devotos, Uma Fé, Nenhum Milagre (Editora da Unesp), Maria Orlanda Pinassi estuda o trabalho dos três intelectuais que se envolveram na publicação (Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto Alegre e Francisco de Sales Torres Homem) e o conteúdo da publicação, que analisa também o quadro econômico, político, social e cultural do Brasil das primeiras décadas do século 19. Também se destinava à difusão da cultura literária e científica nacional.

O artigo bombástico de Gonçalves de Magalhães que gerou o romantismo propunha a existência, atuante ao longo da história da jovem literatura brasileira, de um "instinto oculto". A Nitheroy teve apenas dois números. Segundo experts da USP, seu pioneirismo só é comparado à publicação do "jornal literário político, mercantil etc." O Patriota, que circulou no Rio de Janeiro em 1813, e ao jornal O Panorama, de Alexandre Herculano, órgão da "Sociedade Propagadora dos conhecimentos úteis", em Lisboa.

O primeiro número da Nitheroy trazia lado a lado um longo estudo sobre a morfologia e tipologia dos cometas e um debate sobre a economia escravista; um artigo de economia, no qual se analisa um relatório do governo, e dois textos sobre arte: o primeiro referente à literatura e o segundo, à música no Brasil. O segundo número continha artigo sobre a missão social da religião, um estudo de química industrial (dedicado à produção do açúcar e destilação de aguardente), e um comentário ao estado do comércio da França com o Brasil.

Segundo Sérgio Buarque de Hollanda, o romantismo de Gonçalves de Magalhães fundamentou-se num amplo, erudito e mesmo confuso conjunto de valores literários que, primeiramente, exerceu papel decisivo na nossa literatura culta e que, posteriormente, depurado, viria a alimentar uma certa inspiração anônima do povo, imprimindo "um vigor novo às expressões mais genuínas de nossa alma popular".

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