Excesso de referências históricas e citações eruditas prejudica Cemitério de Praga

MAURÍCIO SANTANA DIAS

MAURÍCIO SANTANA DIAS É PROFESSOR DE LITERATURA ITALIANA NA USP, TRADUTOR, AUTOR DE A DEMORA: CLAUDIO MAGRIS, DANÚBIO, MICROCOSMOS (LUMME), ENTRE OUTROS TRABALHOS, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2011 | 03h08

Quem incriminou diretamente o capitão Dreyfus no caso que mobilizou a França no fim do século 19? Simone Simonini. E quem forjou o primeiro documento que depois viria a ser conhecido como os Protocolos dos Sábios de Sião, um dos suportes ideológicos ao delírio antissemita de Hitler? Simone Simonini. Quem, por fim, foi responsável pelo naufrágio do Ercole, embarcação que conduzia o escritor Ippolito Nievo e seus relatórios - talvez comprometedores - sobre a expedição dos Mil garibaldinos? Claro, Simone Simonini.

Simonini é protagonista de O Cemitério de Praga, o sexto e mais recente romance de Umberto Eco, a única criatura ficcional em meio a uma multidão de figuras históricas "realmente existentes". Nascido em Turim no ano de 1830, Simonini é uma espécie de personagem-valise que carrega grande parte das agruras e desastres ocorridos na Europa, entre meados do século 19 até as catástrofes mundiais do século 20.

O romance de 27 capítulos, com muitas ilustrações e mais de 500 páginas - extenso como todos os romances de Eco -, começa numa homenagem explícita aos folhetins oitocentistas (especialmente os de Eugene Sue, Ponson du Terrail e Alexandre Dumas) e uma alusão mais ou menos velada a Se Numa Noite de Inverno Um Viajante, de Italo Calvino. As cenas iniciais são descrições de bairros suspeitos e dos bas-fonds da Paris de 1897, que culminam na loja de bricabraques em cujo andar superior mora o personagem principal da trama. Assim como acontecia no romance de Calvino, ao final desse capítulo de abertura o "Narrador" se dirige ao "Leitor" e abre as portas ao misterioso personagem que passará a conduzir a maior parte da narrativa.

Já no capítulo seguinte, escrito em forma de diário e intitulado Quem Sou?, o próprio Simonini toma a palavra a passa a destilar seu ódio por alemães ("o mais baixo nível concebível de humanidade"), franceses ("São maus. Matam por tédio") e seus conterrâneos italianos ("o italiano é inconfiável, mentiroso, vil, traidor"). Mas o alvo predileto de sua fúria são os judeus ("Quem odeio? Os judeus, me ocorreria dizer"), uma aversão que lhe foi incutida desde a infância pelo avô, capitão defensor do Ancien Régime e antissemita feroz.

No entanto, como confessa Simonini, ele nunca teve contato com judeus, com exceção de "uma putinha do gueto de Turim" e de um tal "doutor Froide", "austríaco (ou alemão, dá no mesmo)" que ele conhecera numa taberna parisiense em meados dos anos 1880. Aliás, foi por sugestão de Froide que Simonini resolveu escrever suas memórias, pôr sua "alma a nu". E aqui Umberto Eco presta outra homenagem, não tanto ao fundador da psicanálise, mas a Italo Svevo e seu grande romance, A Consciência de Zeno. A partir daí, o romance vai enveredando nas neuroses de Simonini - que, entre tantas bizarrias, está convencido de que tem um duplo, o abade Della Piccola) e recua até sua pré-história, desde a infância, passada entre jesuítas lascivos e o avô paranoico, à idade adulta, quando se torna um genial e inescrupuloso falsário de todo tipo de documento.

Alternando as vozes narrativas entre Simonini, Della Piccola e o narrador onisciente, cada qual marcado por três caracteres tipográficos distintos, Eco vai montando seu puzzle histórico-ficcional com grande erudição e senso de humor, de um grotesco quase rabelaisiano, aspectos que a tradução de Joana Angélica D'Avila Melo replica hábil e pacientemente. Mas - que pena - a engenhosa máquina narrativa acaba descarrilando lá pela metade do livro, quando os personagens submergem num caldeirão indigesto de complôs internacionais, missas negras, maçons e jesuítas fanáticos, dossiês apócrifos e assassinatos a três por quatro.

De fato, a certa altura o leitor se sente como asfixiado pelo excesso de fatos históricos, citações literárias, idas e vindas no tempo, cruzamento de vozes narrativas e personagens. O resultado acaba sendo uma mistura não muito feliz de O Pêndulo de Foucault e de Baudolino, e no fim das contas é como se voltássemos à loja de bricabraques descrita na abertura do romance, onde a saturação produz um inevitável efeito kitsch.

Apesar disso, o romance teve enorme repercussão quando foi lançado no ano passado na Itália, menos por seus dotes literários e mais, muito mais, pelos temas abordados. Os ataques partiram sobretudo de vozes ligadas à Igreja, que condenaram a obra como perigosamente amoral. No entanto, como resposta, os sinais emitidos pelo semiólogo-romancista foram ambíguos e não ajudaram a melhorar o debate. Se por um lado o Eco defendeu seu romance dizendo que toda obra de ficção demanda do leitor uma suspensão do juízo moral, e que afinal de contas ele também pretendeu divertir e entreter, por outro declarou que sua "intenção era desmembrar o racismo em todas as suas manifestações" (ver reportagem de Ubiratan Brasil do último dia 16, no Caderno 2 Domingo).

"Tentei criar o personagem mais odioso do mundo", completa Eco. Mas Simonini é, no máximo, um canalha rocambolesco e risível que se viu, meio ao sabor do acaso, envolvido nos principais acontecimentos históricos de seu tempo. Como um Forrest Gump do mal.

O CEMITÉRIO DE PRAGA

Autor: Umberto Eco

Tradução: Joana Angélica D'Avila Melo

Editora: Record

(480 págs., R$ 49,90)

Romance teve enorme repercussão quando saiu, em 2010 - menos por seus trunfos e mais pelos temas abordados

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