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Excedente

Tinham tentado de tudo, Serginho continuava impossível, até que o pai achou alguém que certamente controlaria seu filho, um general

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 02h00

Os pais do Serginho não sabiam o que fazer com ele. Tinham tentado de tudo: psicologia, castigo corporal, passes, hipnose, preces esotéricas e chás tranquilizadores importados do Oriente com os quais o menino borrifava o melhor sofá da sala, quando não a cara da babá. Nada funcionava, Serginho continuava impossível. As babás se sucediam e nenhuma ficava mais de dois dias no emprego. A última tentativa fora com uma frau alemã, famosa como disciplinadora no mundo das babás, que não durara dois dias e dizem que está até hoje num asilo para recuperação da autoestima.

O pai do Serginho tomou uma decisão. Não disse nada para a mulher. Só disse que chegaria em casa com alguém que, certamente, conseguiria controlar o Serginho. E chegou com um senhor de aspecto respeitável, respeitáveis cabelos grisalhos e um ar, acima de tudo, de respeitável autoridade. O pai do Serginho apresentou-o à mulher:

– Este é o general Tal.

– General?!

– Ele vai nos ajudar a controlar o Serginho.

*

A conversa transcorreu normalmente. Salário não seria problema. O general aceitava ganhar o mesmo que as babás Até menos, no caso da babá alemã, que insistia em ser paga em dólar. Tudo combinado, o general pediu para dar uma olhada “nos alojamentos”. O pai do Serginho estranhou. “Alojamentos?”

– Sim. Vou me instalar aqui, eu e meus camaradas.

– Camaradas?

Naquele instante, ouviu-se a campainha da porta. A mãe do Serginho foi abrir. Eram quatro homens, todos com o mesmo aspecto respeitável do general Tal. Que os identificou, um a um. Eram todos generais. Todos aceitavam o trabalho de controlar o Serginho, por qualquer salário.

O general Tal estava sorrindo. Entedia a confusão do pai do Serginho. Era tudo uma questão de excedente mal planejado. 

– Chamaram tanto generais para o novo governo que muitos não têm o que fazer. Ficam atirados no Planalto, jogando carta, falando mal do Paulo Guedes... Assim, pelo menos, a gente se ocupa. Podemos cortar sua grama, fazer um churrasquinho de vez em quando, e tornar o Serginho respeitável como nós. 

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