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Fábio Porchat
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Exames

Fui fazer uns exames outro dia, fiz um raio x do joelho. Não importa se o seu exame é no SUS ou no Einstein, você sai do exame com a certeza de que, agora, virou um homem radioativo. Um Fukushima humano que terá de ser esterilizado com laser para voltar ao convívio com humanos. Você fica de aventalzinho e só.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2014 | 02h07

O enfermeiro te dá uma tira imantada de trinta por trinta para você amarrar na cintura para proteger seus futuros possíveis filhos do pior, e você já está pronto para ser radiografado. Indefeso, com frio, muito frio, você se dá conta de que algo estranho está para acontecer quando o enfermeiro te deixa sozinho na sala e se esconde atrás de uma muro de aço e te vê por uma janela blindada.

É a clara sensação de que ele está sabendo de alguma coisa que eu não sei. Dá vontade de perguntar se não daria pra fazer o exame atrás da barricada também. O cara fala com você através de um microfone e pede para você ficar parado e não se mexer. Meu instinto diz: corra, corra pela sua vida antes que os "raios xises" tomem conta do seu corpo. Minha tira imantada amarrada bisonhamente na pança chega a ser uma piada de humor negro feita pelo hospital.

Uma luz com uma cruz preta está iluminando meu joelho. Os segundos levam anos. Um barulho, como uma foto polaroide maligna gigante tirada pelo demônio é ouvido. Um estalo.

Você não sente nada, nada acontece, mas, no fundo, você sabe que aquilo agora entrou em você. Pra sempre. Será que meu próximo xixi será verde? Um silêncio toma conta da sala. Não sei se aos poucos vou me transformar em um zumbi e disseminar um vírus que exterminará a população mundial, se descobriram um imenso câncer que tomou conta de todo o meu joelho e tem o tamanho de uma melancia, ou se simplesmente deu tudo certo. Deu tudo certo, mas ninguém me tira da cabeça que tem alguma coisa ali que eles não contam pra gente.

Agora é a vez do pulso. Deito em uma cama gelada e a luz com a cruz preta começa a se locomover para a direção do braço. Agora os raios estarão mais perto do meu rosto. Eu não estou nem mais preocupado com a possível perda da minha virilidade, eu só penso: Como é que eu protejo o meu cérebro disso. Amarro a manta na testa? Tarde demais.

O enfermeiro já está do outro lado da base antibomba atômica e preparadíssimo para enfrentar uma possível terceira grande guerra. E eu ali, de bunda de fora, com frio e sabendo que tudo se encaminha para o fim. Barulho. Pronto, acabou. Deu tudo certo. Por enquanto. Saio com a leve sensação de que se eu ficar muito bravo no trânsito tenho grandes chances de virar o Hulk.

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