Exaltação da América

Responsável pela seção musical, Alberto Soares de Almeida via no compositor a junção da técnica europeia à viva expressão nacional

, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

12.10.1957

Ao mesmo tempo em que se realizava em São Paulo a Semana Villa-Lobos - louvavel iniciativa da Secretaria de Educação e Cultura do Municipio - tinha lugar, em Montevidéu, o Festival Latino-Americano de Musica, organizado pelo SODRE.

Não parece necessario insistir nos meritos da "Semana", acontecimento cuja cobertura já foi feita em tempo oportuno pelo noticiario e pela critica especializada. Já o mesmo não sucede com o festival uruguaio. E como as homenagens caseiras podem (...) sugerir um certo espirito de indulgencia e parcialismo, convém que ouçamos também a voz internacional e insuspeita dos outros paises, procurando saber o que pensam eles a respeito do grande compositor brasileiro.

Nada melhor para isso do que transcrever o discurso de Alberto Ginastera - um dos maiores compositores da Argentina e da America - proferido na abertura do Festival do SODRE. Por falta de espaço, é parcial a transcrição abaixo:

"Com as vibrantes notas do Hino Uruguaio, que é para os povos irmãos da America um simbolo de liberdade e de paz, inaugurou-se este Festival de Musica organizado pelo SODRE e durante o qual, num gesto de confraternização artistica, serão apresentadas as obras dos compositores dos diversos paises de nosso continente.

Não é por acaso que este Festival se inicia com uma obra de Heitor Villa-Lobos. Assim o quiseram expressamente seus organizadores, a fim de render homenagem ao Maestro (...).

A America dos conquistadores e dos Incas, a America dos Andes, do Mato-Grosso, dos Pampas e do Colorado, a America na qual uma das mais antigas civilizações do mundo deixou vestigios que podemos admirar ainda no Mexico, Peru ou Bolivia - não pode ser semelhante á Europa, onde os povos se desenvolveram lentamente e onde a cultura já possui algo de secular e definitivo. Com isto não pretendo negar a influencia européia em nossa formação cultural; creio que quase todos os nativos desse Continente procedem de imigrações européias e portanto participam de seus costumes e tradições. Mas, ao chegar á America e ai misturando seu sangue, o homem europeu começou a olhar as coisas de um angulo diferente, adquirindo um matiz novo. Já o disse o Maestro Carlos Chavez em artigo sobre a arte americana: "Somos um ramo americano da cultura ocidental. Importa insistir nisto porque tem havido duas posições extremas, a meu ver igualmente equivocadas: a indigena, que pretende fazer dos paises americanos nações exoticas e isoladas, e a hispanica, que nega ou menospreza o elemento historico-geografico local, em favor de um servilismo cego a outras regiões".

Estas palavras reveladoras de Chavez definem claramente sua posição artistica, que é a de admitir uma diferenciação entre as culturas européia e americana. Do mesmo modo, todos os criadores da America que se têm destacado, seja no terreno das letras, da poesia, das artes plasticas ou da musica, conseguem uma expressão propria se se baseiam nessa dualidade de influencia. A Musica de Villa-Lobos, como a poesia de Walt Whitman ou de Neruda, a prosa de Steinbeck ou de Guiraldes, a pintura de Figari ou de Tamayo, é sempre um canto exaltado á terra americana. Sim, podemos dizê-lo sem vacilar, Villa-Lobos é um dos genios da America porque sua arte reune o elemento tecnico europeu á expressão autenticamente nacional. (...)

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