Ex-prisioneiro chinês expõe suas "notas do cárcere"

Uma exposição em Nova York conta a história de como um homem sobreviveu à prisão durante a Revolução Cultural chinesa (1966-1976) através da arte. Paisagens da Memória - A Arte de Mu Xin, atualmente em cartaz na Sociedade Asiática de Nova York, reúne 66 trabalhos de Mu Xin, um chinês que passou um ano e meio preso numa cela solitária subterrânea por "pensamento contra-revolucionário".Além das Notas do Cárcere, Mu Xin também exibe pinturas que fez quando, já fora da cela solitária, ficou um ano em prisão domiciliar. O trabalho de Mu Xin como pintor era muito maior do que as 33 imagens exibidas em Nova York. Estas são as que restaram depois da destruição de quase todas as suas pinturas pelo governo chinês, então liderado por Mao Tsé-tung.Preso por mais de um ano, Mu Xin recebia papel dos carcereiros com o fim de confessar seu "crime" de pensar livre e criativamente. Ele escondia uma parte do papel que recebia em seu uniforme de detento e assim conseguiu salvar aquele que, segundo os organizadores da mostra, é o único testemunho escrito das prisões durante a Revolução Cultural.As notas de Mu Xin revelam desespero e a falta total de perspectivas: "A desesperança nos animais é um sentimento biológico de que o fim se aproxima. Mas nos seres humanos é um juízo definitivo, baseado na razão e no pensamento consciente", escreveu ele. De tudo o que Mu Xin registrou quando preso, pouco foi traduzido e o próprio artista, que ainda vive nos Estados Unidos, não dá sinais de querer traduzir mais, tão pouco de editar as notas em livro. Mu Xin considera as notas um trabalho imaturo e também não que ser rotulado ideologicamente.Mu Xin deixou a China em 1982. Foi viver em Nova York, levando consigo as obras que conseguiu esconder do governo chinês. Nascido em 1927 em uma proeminente família de Xangai, ele recebeu formação humanista antes da Revolução Cultural. Chegou a estudar arte européia no Instituto de Belas Artes de Xangai e explorou conexões entre a arte chinesa e a cultura ocidental. A Revolução Cultural lhe feriu a carreira e a vida, mas não matou sua vontade de criar, que os nova-iorquinos agora podem conferir.

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