Reprodução
Reprodução

Ex-presidente uruguaio revê seu percurso e o do país em dois livros já clássicos

Julio María Sanguinetti escreve no limite entre memória e história

Danubio Torres Filho,

14 de setembro de 2012 | 19h00

Segundo François-Xavier Guerra, no ciclo das revoluções hispano-americanas "a emergência da verdadeira pátria resultou da união de vontades e não de uma mera herança, seja geográfica ou histórica". No caso do Uruguai (país de dimensões modestas, população escassa, que se converteria, devido às suas credenciais democráticas, um exemplo para o continente, a "Suíça da América Latina"), essa "união de vontades" sem dúvida foi determinante e sinalizou, apesar das nítidas diferenças entre os principais partidos, uma relativa estabilidade que predominou de 1836 em diante. Se em cada nova pátria que surgiu novas virtudes se somaram no gesto independentista, a singularidade uruguaia, baseada mais no consenso de vontades do que de mentalidades, pretendeu ser desde cedo um sinal de identidade. Pois bem: este traço peculiar feito de vontades empenhadas num mesmo esforço norteador foi o mais afetado nas décadas de 60 e 70 do século passado. De fato, primeiro em 1963, quando se registrou a primeira ação de violência política com o fim de substituir o regime democrático por um governo revolucionário, e depois em 1973, quando o Exército suprimiu as instituições e se apoderou do governo do país por tempo indeterminado, começam os confrontos, as vontades se desintegram. O rompimento da legalidade, o colapso do processo democrático e como que uma perda do ânimo moral e sentimental, tomaram conta do país.

Por isso, não surpreende que entre os muitos livros dedicados a rever o passado uruguaio recente, dois assinados por Julio María Sanguinetti tenham contado com um nítido apoio do público leitor, entre eles um bom número de partidários políticos que já constam como referências no assunto.

Tanto La Agonía de Una Democracia. Proceso de la Caída de las Instituciones en el Uruguay - (1963-1973), publicado em 2009, como o recente La Reconquista. Proceso de Restauración Democrática en Uruguai (1980-1990), de 2012 - ambos lançados pela Editora Taurus -, são obras históricas complementares, escritas, esclareça-se, "com intenção de verdade", frase cunhada por Paul Ricoeur e que é uma das citações que o teórico reivindica do historiador. O objetivo num e noutro título, às vezes atenuado ou acentuado porque são períodos distintos nos quais o autor está mais ou menos envolvido, é "procurar o máximo de imparcialidade, buscar fontes plurais e fazer uma clara distinção entre fatos e opiniões". Mais do que respaldar a história partidária e as consequentes defesas parciais, o que muito se observou nas disputas desencadeadas nas "novas pátrias" do século 19 e que mais tarde, e até hoje, no seu afã para recriar o passado mediato ou imediato, se apossaram das versões analíticas das esquerdas, e mais do que querer se justificar, o que, diz o autor, é uma "tentação permanente", o que Sanguinetti deseja é se concentrar no desenrolar e no encadeamento dos fatos. Uma cronologia pautada por notícias, acontecimentos e dados. A colagem, o pastiche, a citação, o comentário, orientam a mão que recorta, combina, reúne e assim reconstrói o fluxo sequencial. O objetivo é apresentar quadros e sinopses que diferem da afirmação pessoal, não somente em termos de grau, mas de forma e de fundo. O objetivo destas análises especialmente informativas é lançar uma luz inequívoca, rigorosa na medida do possível, sobre a trama narrada.

Por outro lado, e segundo a lógica estabelecida, o autor pretende delimitar claramente o que é memória ("a lembrança sempre parcial de uma pessoa ou um grupo") e o que é história ("um processo de reconstrução do passado com base em muitas lembranças, com frequência contraditórias, além de outras fontes que não a memória").

Possivelmente este era o único caminho possível - percorrido da maneira como o fez Sanguinetti - para alguém tão envolvido no cenário descrito. Porque a partir daí surge, sem pressões nem injúrias, uma narrativa que se impõe pelo despojamento com que o autor se desloca de um capítulo para outro e pela trajetória que, sem ruído nem altos e baixos, desperta a atenção e o interesse pela capacidade de convencer e despertar a atitude crítica. Daí surge também uma reavaliação que prende o leitor uruguaio com mais intensidade à medida que recria um universo político cujos personagens, importantes ou subentendidos, são mais fáceis de identificar. As descrições de personalidades políticas ou públicas (como Wilson Ferreira Aldunate, Líber Seregni, Luis Alberto Lacalle, Enrique Tarigo, Carlos Julio Pereyra) eficazes e generosas, com um sabor a ser degustado integralmente pelos concidadãos do país. Há uma terceira consequência da estratégia escolhida: ao desejar que somente os fatos falem, Sanguinetti quis desfazer equívocos, imprecisões e deturpações que o próprio hábito histórico, ou seja, a memória passiva ou distorcida, acabou por aprovar. Se La Agonía de Una Democracia corrige e refuta a versão defendida pelos tupamaros de que seu movimento subversivo surgiu depois de o Exército irromper no espaço público do país e colocar em risco a sobrevivência das instituições, La Reconquista se centraliza na trama, tão ampla e diversa diante dos diferentes interesses envolvidos, em que se busca articular e chegar rápido a um consenso capaz de trazer o país de volta à legalidade.

Por que estes livros de Sanguinetti se tornaram um sucesso de vendas? Sua dupla ou tripla autoridade tornou possível tal milagre. Protagonista principal, como presidente eleito do Uruguai nos períodos de 1985-1990 e 1995-2000, dirigente político de um dos partidos tradicionais do país (Colorado) e durante parte do período que procura reviver nos livros, Sanguinetti foi diversas vezes deputado, senador e ministro, jornalista, profissão que exerceu desde muito jovem, um homem de ação e de reflexão; pragmático e racional. Ao mesmo tempo, testemunha, comentarista e instigador. Assim, sua condição de protagonista, além das aprovações e animosidades, o situa no coração dos acontecimentos e este coração - no sentido real e metafórico - ao se materializar numa pessoa, faz com que o leitor, diante da força persuasiva dos fatos, recrie mental e sentimentalmente um período histórico ainda em aberto e próximo. Uma recriação bem-vinda enquanto resgate do passado. Se em La Agonía de Una Democracia o objetivo do relato é traçar, minuciosamente, os desvios provocados pelo trauma do desmantelamento e o sequestro da democracia, além do luto institucional e sentimental, em La Reconquista ele procura recuperar, com a mesma minúcia escrupulosa, as idas e voltas que levaram à sua restauração, suas promessas terapêuticas e sua pedagogia da reconstrução. Neste livro, por exemplo, o acompanhamento passo a passo das conversações entre os representantes do partidos políticos e os dos militares, as atitudes inflexíveis ou a argumentação com frequência imprevisível de uns e outros, procurando orientar as discussões de modo a favorecer seus próprios pontos de vista, além da intensidade dramática do relato, revela um processo em que o objetivo é descrever fielmente todas as posições.

A novidade destes relatos, que servem como vasos comunicantes entre um e outro livro, é que estão amparados num desejo de transparência deliberadamente colocada à prova a todo momento, uma vez que o autor quis apresentar versões distintas e plurais, mas sem privilegiar nenhuma. Basicamente, há um nítido objetivo didático, ou seja, manter aberta - e alerta - a distinção entre a investigação histórica (que são os fatos) e a escritura histórica (que é a investigação), entre a perspectiva do historiador e a do ator histórico. A "intenção de verdade" está, portanto, patente. Desse modo, Sanguinetti privilegia a crônica, o inventário e o cômputo dos fatos e se afasta da arquitetura interpretativa e do argumento ideológico. O que acaba conferindo a ele mais um tipo de crédito: de quem encontra suas justificativas e o seu triunfo na garantia da realidade que a força dos fatos transmite. São exatamente esses fatos, separados, selecionados, fundidos e dispostos de tal maneira que ressuscitam imagens, instigam o debate, suscitam dúvidas e, por outro lado, provocam uma verdadeira profilaxia. Por isso os dois livros são, no sentido regenerador da palavra, saudáveis. Com efeito, o sistema desenvolvido com insistência e paciência gerou uma dinâmica de contrários interdependentes e antagônicos que exige a colaboração ativa do leitor e o leva, de um modo ou de outro, concorde ou não com o texto (e o subtexto), a se pronunciar, se envolver, mas jamais se dispersar. É uma verdadeira partenogênese. O sistema utilizado - e isto é importante - reitera mais um aspecto: que a ideologia liberal, que Sanguinetti traça e sustenta ao longo da sua exposição, na verdade é, como diria Raymond Aron, uma anti-ideologia. Chegamos assim a uma questão central, a um reconhecimento moral se assim o desejar, que não deve ser postergado: os trabalhos de Sanguinetti e o tempo que ele dedicou a esses trabalhos não têm absolutamente nada de ingênuo ou deliberadamente inocente. Neles Sanguinetti se expõe, se manifesta e defende o próprio legado. E, o que é perfeitamente pertinente, expõe, manifesta e defende o mito criado em torno dele. Sua índole republicana, que sabe que conflito e oposição não são apenas partes constitutivas de um determinado cenário político, mas também geradores das alternativas possíveis que vão ajudar a delinear e resolver esse mesmo cenário, está expressa em muitos capítulos desses livros.

La Agonía de Una Democracia e La Reconquista não são livros (não pretendem ser) cerebrais, não são livros (e não querem ser) literários, não são livros (e não querem ser) pomposos. São livros que emocionam, desenvolvem e aprofundam. Peculiarmente, são livros que pretendem restituir às novas gerações a ideia original da "união de vontades", sem dúvida conscientes de que estes tempos ideológicos, de grupos tão imprecisos, erráticos e inclinados a fomentar os confrontos e a dispersão, assim o exigem. Esta é a derradeira forma de autoridade expressa nestes livros: Julio Sanguinetti é, simbólica e efetivamente, um pater família. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

DANUBIO TORRES FIERRO É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO E EDITOR DA FONDO

 
Tudo o que sabemos sobre:
Julio María Sanguinetti

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.