Joelia Cavalcante/Divulgação
Joelia Cavalcante/Divulgação

Ex-moradores de rua viram fotógrafos e retratam São Paulo em exposição

As 40 fotos da exposição Eco da Ocas serão expostas a partir desta terça (5) na Livraria Bookstore, zona central da cidade

Davi Lira - O Estado de S. Paulo,

04 Fevereiro 2013 | 22h03

Ele queria ter um olhar só dele. Uma visão de mundo que pudesse ser registrada e transmitida para os demais. Foi com essa motivação que o ex-morador de rua Gerson Roberto, de 45 anos, resolveu participar da oficina fotográfica promovida pela Ponto Cultural Ocas, localizado no Brás, zona leste de São Paulo.

Finalizada no final de 2012, depois de quase um ano de curso, a oficina foi capaz de revelar não apenas um, mas cerca de 30 novos fotógrafos, que assim como ele, conseguiram registrar uma São Paulo bem particular. O apanhado final dos trabalhos resultou numa seleção de 40 fotos que serão apresentadas na exposição Ecos da Ocas a partir desta terça-feira, 5, às 19h na Livraria Bookstore, localizada na Rua Bento Freitas, 314, Vila Buarque, zona central da capital.

"Os participantes já estão acostumados com a cidade, as ruas e o cotidiano de São Paulo, até porque vários dos integrantes da oficina já moravam na rua, mas através da fotografia eles passaram a perceber esse visual de uma forma mais crítica", diz o fotógrafo e arquiteto Lucas Barros, professor voluntário responsável pela oficina de fotografia.

E o resultado final dos trabalhos não impressionou apenas o professor, surpreendeu a todos os participantes. "Eu nunca tinha pego um equipamento para fazer foto. Com a oficina, aprendi a perceber que a fotografia é capaz de levar as pessoas a vários lugares, ela convida a visitarmos o mundo de acordo com a nossa visão", diz Gerson, atualmente morando em albergues.

Outros ex-moradores de rua e ex-dependentes químicos, também participaram da oficina juntamente com outras pessoas, de enfermeiros a arquitetos, a maioria moradores da região do Brás. "A mistura é proposital, com isso a enfermeira perde preconceito com o morador de rua. E o morador de rua não se sente renegado. Acaba rolando um entrosamento entre eles", diz Barros.

O resultado final da iniciativa, que conta com a parceria da Pinacoteca do Estado de São Paulo e do Instituto Pró-Diversidade, poderá ser conferido até o dia 9 de março.

Oficina de texto

A busca da valorização da dignidade de ex-moradores de ruas também foi aprofundada através de uma outra oficina, a de produção textual. Focada na criação de poesias, ela foi realizada de julho a dezembro de 2012 e também contou com cerca de 30 integrantes, em sua maioria ex-moradores de ruas, sem tetos e moradores de albergues. Os trabalhos do grupo também estarão apresentadas na exposição Ecos da Ocas.

"No primeiro momento, eles estavam desconfiados, mas depois eles se abriram completamente. Percebemos com a oficina que não é apenas as pessoas que têm medo dos moradores de rua, o medo deles da sociedade tem a mesma proporção", afirma Péricles Formigoni, professor da oficina de poesia e criação de texto.

Com o final da oficina, um dos participantes tem até uma lição de todo o ensinamento compartilhado pelo grupo. "Quanto mais conhecimento as pessoas têm de nós, mais se diminui o preconceito", diz Paulo Sérgio, de 38 anos, conhecido como Jamaica.

"É importante que as pessoas consigam enxergar as ruas sob uma nova forma, e repensar a cidade e a população de rua ou em vulnerabilidade social de uma maneira mais humanizada e social", pontua Formigoni.

No última dia da exposição, está programado o lançamento do livro sobre a história de 10 anos da Ong Ocas, conhecida por oferecer oportunidades de trabalho para moradores de ruas com a venda de revistas.

Poesia

Confira um dos textos que estarão na exposição

Qual é o Caso?

Descaso da Sociedade!

Pelas ruas sujas e escuras do centro, as pessoas vivem, sobrevivem, comem, defecam, dormem e se consomem.

Descaso da Sociedade!

Mas isto não é o caso, o caso é que na rua existe poesia viva,

da vida em movimento

Nos repentistas da praça, nas estatuas vivas de rua a fazer reverência, no teatro de rua... todos somos atores?

O grande circo de rua com suas atrações!

A cidade é diversa!

E na adversidade... o descaso da Sociedade!

Mas eu prefiro ver a arte, na rua somos todos artistas!

Somos obras inacabadas de Deus

a sobreviver...

ora nos cantos... o absurdo!

ora na luz do Sol... o improvável!

Somos poesia viva!

Todo morador de rua é uma expressão de arte,

rostos marcados pintados como um quadro,

mágicos que vivem a beira da cidade, da civilidade,

da inocência, da decadência, da demência, do descaso...

E o caso é que existe

Mesmo que de uma forma inexplicável

intensa, inacadêmica e viva

Num descaso da Sociedade

É o morador de rua que ri

E faz descaso da Sociedade!

(Tula Pilar e Péricles Formigoni)

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