Ex-interno da Febem conta sua história em livro

Escrever um livro sobre sua história foi o caminho escolhido por Cleonder Evangelista para contar suas experiências como traficante mirim na pequena cidade de Borborema e o cotidiano em uma das mais violentas unidades da Febem, a de Franco da Rocha. Uma Luz no Fim do Túnel chega às livrarias em março, publicado pela editora Arte e Ciência (224 págs., R$ 33, 3257-5871, editora@arteciencia.com.br). Por meio das palavras Evangelista narra o seu percurso até chegar ao curso de Direito.Menino pobre, filho de pai bóia-fria e mãe bordadeira, teve uma infância típica de meninos do interior, cresceu solto, teve a rua como um espaço lúdico. Aos 13 anos conseguiu um emprego de garçom em uma lanchonete. "Ganhava apenas R$ 10 por noite. Era muito pouco. Então, fui até um traficante da região, conhecido como Biro-Biro e passei a vender drogas." A polícia logo descobriu o esquema do garoto, que mudou de emprego, ou melhor, o ponto-de-venda. Mas, as coisas não saíram como o planejado. Na volta de uma breve viagem até Ibitinga, com cerca de 2 quilos de cocaína na bagagem, Evangelista avistou na estrada um bloqueio policial. "Fiquei assustado, joguei a droga no meio do mato. Consegui me safar da polícia, mas fiquei enrolado com o traficante." Para resolver o problema, decidiu que iria assaltar um mercado. Resultado: foi preso. "O advogado alegou que eu era viciado e fui para uma clínica. Fiquei um mês e saí. Voltei para Ibitinga, fui pego embalando maconha - dois meses de cadeia de Itápolis e oito em uma clínica. Depois fui encaminhado para a Febem, unidade Brás."De lá migrou para o Internato Encosta Norte, em Itaquera. Durante dez meses teve a oportunidade de fazer curso de panificação e serigrafia. "Estava com 17 anos quando saí. Consegui um emprego em uma malharia para fazer estampa em camisetas. Estava animado, além do trabalho, comecei a namorar." A felicidade durou até sair uma nova sentença. Desta vez, a condenação era por uma tentativa de homicídio. "Apenas 4 meses de liberdade e tudo de novo, outra vez. Meu mundo desabou. Quando estava na cadeia de Itápolis, de fato, eu e outros presos agredimos com golpes de facas um estuprador."Rumo à Febem de Franco da Rocha, Evangelista decidiu que iria mudar a sua situação. "Não arrumei confusão, nem com os detentos, nem com os funcionários. Passava boa parte do meu tempo lendo. Pedi para mudar para uma unidade mais tranqüila dentro daquele complexo e a coordenadora apostou em mim." Voltou sua atenção aos estudos, conseguiu concluir o segundo grau e queria mais. "Pedi aos coordenadores para prestar vestibular. No início eles não acreditaram muito, insisti, argumentei que tinha direito à educação, até que foi solicitado a um juiz a autorização para a realização da prova." Nervoso, ansioso, depois de 40 dias sem sair sequer para o banho de sol, ele foi acompanhado de um funcionário prestar a prova. "Quando vi o resultado, foi uma alegria só. Os funcionários e os coordenadores ficaram felizes, sem eles eu não teria conseguido. Foi um dia emocionante, fui tratado como ser humano", lembra.Os funcionários também ajudaram o rapaz a conquistar uma bolsa de estudos. "Depois, a psicóloga mandou um relatório conclusivo ao juiz, alegando que eu já estava reeducado. A autorização para a minha liberação veio no dia 4 de janeiro de 2002." Mesmo com a bolsa de estudos, para conseguir se manter, vendia vassouras durante o dia e ia para a faculdade à noite. No final do primeiro ano, entrou em contato com Henrique Flory, da Unip, em busca de um estágio. "Contei toda a minha história. Ele me perguntou se eu não gostaria de escrever um livro. Sempre gostei de escrever e coloquei tudo o que passei e senti no papel, como em um diário. Aceitei o desafio e me transferi para São Paulo, onde estudo e me dedico a dar palestras em escolas públicas e faculdades."Essas histórias e muitas outras estão reunidas no livro Uma Luz no Fim do Túnel, com textos de Drauzio Varela e do secretário de Estado da Educação, Gabriel Chalita. "Com tudo isso, voltei a ter esperanças, a ter consciência do quanto é importante sonhar e poder traçar o próprio destino." Evangelista já planeja o próximo livro e se derrete com o filho, o pequeno Emanuel, nascido no dia 20.

Agencia Estado,

02 de fevereiro de 2004 | 10h33

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