Ex-detento descreve em livro a rotina da violência

De domingo, do momento em que estourou o maior movimento de presos da história do País, para cá, o telefone do comerciante Josemir Prado, de 50 anos, tocou muitas vezes, mas ele quase sempre ouvia a mesma piada: "Miro (seu apelido), tudo bem que você quer vender livro, mas virar 27 penitenciárias só para isso não é um pouco demais?"Apesar do apelido Miro, Josemir é mais conhecido por Jocenir. Com esse psedônimo involuntário, criado pelo rapper Mano Brown, que durante uma visita ao Carandiru foi apresentado ao "tiozinho", ele assinou a talvez mais conhecida música da história do rap nacional. Do encontro, narrado por Jocenir no livro que acaba de finalizar, o rapper levou a letra de Diário de um Detento, que descreve o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992. Na invasão pela tropa de choque da Polícia Militar, durante o governo Luiz Antonio Fleury Filho, morreram 111 presos.Jocenir - que, na verdade, é um fã do rock dos anos 70, da linha Black Sabbath e Pink Floyd - não estava lá no dia do massacre. Escreveu a poesia reunindo as histórias que ouvia dos colegas. Ele foi preso em dezembro de 1994, acusado de receptação de carga roubada - atividade a que se dedicava seu irmão Márcio Prado (ele conta que estava parado em frente do depósito do irmão, o esperando para iniciar uma viagem, quando foi preso). "Passei um ano na cadeia dando soco na parede, minha vontade era matá-lo", conta. "Depois, quando ele foi preso, acabei salvando sua vida."Essas e outras histórias integram Diário de um Detento: o Livro, depoimento da experiência que Jocenir viveu e que deve ser lançado em maio pela Labortexto Editorial. A obra narra fatos da vida do ex-detento durante sua passagem pelo sistema prisional paulista. Começa com a detenção e termina com a saída, no fim de 1998, resultado de um indulto presidencial. "Quis pintar um quadro que possa dar a idéia do que se passa no interior de uma prisão brasileira, um quadro macabro, mas também repleto de histórias."Na sua avaliação, os distritos policiais, as cadeias públicas e alguns presídios "são campos de concentração, se não piores, iguais aos que os nazistas usaram para massacrar os judeus na 2.ª Guerra".Atualmente, Jocenir (que recebeu até agora só R$ 5.000 pela música) tem dificuldades para manter seus cinco filhos (dois do primeiro casamento e três do segundo, que moram com as mães em São Manuel e Osasco). Um deles prestou vestibular - quer ser analista de sistemas -, mas entrou apenas em universidades privadas. "Não dá para pagar", lamenta o pai.Discriminação - "Quem tem um nível cultural maior, sofre certa discriminação na prisão", explica Jocenir. Apesar disso, por saber ler e escrever bem, ele se tornou uma referência. Num ambiente em que muitos são analfabetos ou pouco escolarizados, um poema "arroz com feijão" bem escrito pode salvar um namoro ou um casamento, o que é ainda mais importante quando se está preso e a namorada ou mulher está do lado de fora. E Jocenir conta que salvou muitos, além de se dispor a ouvir as mágoas de outros tantos jovens. "Quase virei padre; consegui a simpatia e a proteção dos presos, mas isso não significa que entrei no mundo deles."No final do cumprimento de sua pena, no presídio de Avaré, no interior paulista, Jocenir foi chamado por integrantes da facção CDL (Conselho Democrático da Liberdade) para escrever o estatuto do grupo. Assim como o PCC (Primeiro Comando da Capital), o CDL precisava criar regras claras - e de alguém para escrevê-las. Jocenir diz que nunca chegou a ser um integrante da facção, mas conta que, depois de conversar com os líderes do grupo, redigiu o documento, que foi adotado rapidamente."Não dá para acreditar na quantidade de besteiras que estão falando as autoridades", afirma ele, sobre o que ouviu em entrevistas à TV desde domingo. "O negócio das facções nas cadeias é sério, mas elas se negavam a aceitar; a imprensa falava, mas elas não fizeram nada." Uma das coisas que mais lhe incomodam é ouvir que celulares e drogas entram nas prisões escondidos em dias de visita. Segundo ele, apenas uma menor parte entra assim nos presídios. A maior chega pelas mãos dos funcionários. Os presos, conta, compram de tudo, por intermédio dos guardas penitenciários: de carne à entrega de documentos na Justiça.Para Jocenir, o levante já estava preparado, acabou sendo apenas antecipado devido à transferência para Taubaté dos líderes do PCC. Bem antes de domingo, uma primeira versão de seu livro, ainda sujeita à revisão, já dizia: "Esses grupos estão espalhados por todas as penitenciárias do Estado e os confrontos entre grupos rivais fazem parte da rotina dos presídios. Assim como o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, o PCC é a facção que tem maior atuação nos presídios de São Paulo. São famosos pela violência." A pior violência, no entanto, segundo o livro, não é a dos presos. Diário de um Detento narra com detalhes a humilhação que o Estado, por meio dos agentes penitenciários e da Polícia Militar, impõe aos presidiários, especialmente depois que as rebeliões são controladas - numa das cenas que descreve, os presos são obrigados a comer fezes, já totalmente dominados.Além de poemas e cartas, Jocenir aprendeu a escrever requerimentos na prisão. Segundo conta, ajudou "uns 20 presos" a voltarem mais cedo para casa. Não teve a mesma sorte com o próprio caso - uma das causas, conta na obra, foi o envio, pelo Distrito Policial de Barueri, de uma certidão afirmando que ele liderara uma rebelião. "Mesmo que eu tivesse liberado, o crime já havia prescrito", afirma. "Mas não era verdade; meu advogado pediu então o inquérito que apurou as causas da rebelião." O resultado foi uma nova certidão, informando que houvera um erro e que Jocenir não era um dos líderes do motim.Na opinião de Jocenir, um dos grandes defeitos do sistema carcerário é juntar, no mesmo lugar, presos condenados a longos períodos - os "sem-perspectiva" - e outros que cumprem penas menores - "a maioria". Um dos resultados dessa aproximação é que os líderes das facções usam jovens "laranjas" para encobrir os crimes que cometem dentro das prisões. Quando alguém é morto num presídio, por exemplo, é porque já há um "laranja" para assumir o assassinato - normalmente um jovem viciado em drogas endividado com o traficante."O traficante chega e diz: ´Quero o dinheiro agora´." Daí, o cara diz que a família vai trazer, mas o traficante insiste que quer o dinheiro naquela hora, conta Jocenir. Se o "laranja" não aceitar, ele também fica jurado de morte. A conseqüência é que muitos jovens, condenados por delitos menos graves, acabam vendo suas penas crescerem vertiginosamente.Jocenir também afirma que o que houve no Estado de São Paulo não foi exatamente uma rebelião. "Rebelião é confronto; não foi isso, tanto assim que, logo depois, os presos estavam agitando lenços brancos pedindo paz." Também critica o despreparo moral e profissional dos guardas e defende que eles recebam melhores salários. "Os guardas convivem mais com os presos do que com a mulher." Um outro exemplo da conivência dos funcionários com o comércio na prisão é a existência de colchas e lençóis de todas as cores no Carandiru. "Lá, só é permitido o lençol branco; quem coloca esses lençóis coloridos para dentro? Não tem como a visita fazer entrar um lençol."Como o tráfico de drogas domina os presídios, ele defende ainda que, aqueles que forem pegos traficando dentro das presidiárias, sejam punidos mais rigorosamente que os que traficam do lado de fora. "Acho que eles não podiam ter direito a nenhum benefício", explica.Para Jocenir, o código moral dos presos é muito diferente. "Geralmente, eles não tiveram formação religiosa e familiar, cresceram num ambiente de muita violência e miséria; o problema é que o sonho de consumo é o mesmo da classe média", diz. E defende: "Antes de criar e reformar presídios, equipar a polícia, aumentar a repressão, é preciso propiciar condições materiais para nossos jovens se formarem e informarem, especialmente aqueles da periferia."Leia sobre as rebeliõesPara sociólogo, futuro do PCC é incertoQuatro facções atuam nos presídios paulistas

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