Evolução e desejo

Margaret Atwood, autora de ‘Handmaid’s Tale’, deveria ganhar Nobel de criatividade, se existisse

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

24 Março 2018 | 02h00

Margaret Atwood, autora de livros que têm sido adaptados para séries em canais streamings, como Alias Grace (Netflix) e Handmaid’s Tale (Hulu), me lembra Arthur Clarke (2001 – Uma Odisseia no Espaço) e Philip Dick (Blade Runner): deveria ganhar o Prêmio Nobel de criatividade, se existisse. 

Ao menos, ela ganhou o Prêmio Arthur Clarke e o Booker Prize de 2000. E The Handmaid’s Tale, livro de 1985, que virou filme e ópera, ganhou Emmy e Globo de Ouro de 2017 e 2018 de melhor série dramática. Merecidos. É incrivelmente genial e atual. 

Foi escrito antes dos fundamentalistas do Taleban e Estado Islâmico imporem regras sociais duríssimas e arcaicas, especialmente às mulheres. Talvez tenha sido inspirado no retorno do Aiatolá Khomeini ao Irã em 1979, no vácuo do poder deixado pelo destronamento do Xá Reza Pahlavi, e no nascimento da República Islâmica baseada numa leitura radical do Alcorão e da jihad, a guerra santa muçulmana. 

Mulheres foram subjugadas e obrigadas a usar o hijab (lenço). A onda islâmica atravessou fronteiras. No Afeganistão, tiveram que parar de estudar. Na rival Arábia Saudita, nem dirigir podiam.

Em Hadmaid’s Tale, os Estados Unidos passaram por guerra civil. Apenas Chicago resiste a uma corrente evangélica radical que tomou o poder numa antes sociedade caótica, poluidora, hedonista, mudou a bandeira para uma com duas estrelas e impôs duras regras sociais moralizantes. 

Homossexuais, médicos que trabalham em clínicas de aborto e católicos romanos são enforcados e expostos publicamente com capuzes semelhantes aos das vítimas do Isis. Igrejas católicas são destruídas. Cada pedra da St. Patrick’s Cathedral, de Nova York, foi jogada no Houston. 

A sociedade degradada e do Tinder, e a radiação, deu em infertilidade das mulheres. E as que conseguem, a chance de nascer um bebê saudável é de uma para cinco. As poucas capazes de engravidar viram servas para, como ditam os ortodoxos, deitarem-se com homens para o único propósito bíblico: procriar. 

Offred, ex-editora de moda, é a rebelde que, presa e doutrinada, deve usar um lenço e servir ao comandante Fred Waterford, cuja mulher é infértil. O marido copula Offred (de “offered”, oferecida?) num coito burocrático. Ela não pode olhar para ele; discorre sobre as cores do papel de parede do teto. Nem tiram as roupas. 

Revela-se que ela está no colo da esposa, entre suas pernas, de saia levantada, como uma extensão do aparelho reprodutor da infértil. Ao terminar, ela fica deitada. A esposa a expulsa do quarto. Offred diz: “Deitada, as chances de engravidar são maiores”. 

Logo me lembrei dos livros O Macaco Nu (Desmond Morris) e Da Natureza Humana (Edward O. Wilson), que viraram best-seller nos anos 1960-70, resultado da curiosidade despertada pela revolução sexual, em que queríamos entender os meandros de tabus e desejos tão reprimidos no maior país católico do mundo.

Foucault, Wilhem Reich, Roberto Freire (Sem Tesão Não Há Solução) e tratados sobre a evolução das espécies, seleção natural, foram devorados. Afinal, desculpe papai, mamãe, mas tesão, orgasmo, não é pecado: vem da genética. Sem tesão não há espécie. 

Minha avó, italianinha de Modena, nunca viu meu avô, italiano de Bari, pelado. Nem em pé, nem sobre ela. O clitóris era, até há algumas décadas, o órgão menos estudado do corpo humano; sobre o qual há menos registros científicos

Agora se sabe que o canal da vagina durante o coito duplica a profundidade e lubrifica para facilitar o caminho da penetração. Os lábios vaginais, como o clitóris, incham, para quê? Aumentar o prazer. 

No orgasmo, contrações ajudam a sugar para dentro o segredo contido no pênis masculino, o maior membro sexual de um símio. A maioria das primatas despreza o parceiro depois da relação. 

As mulheres são as únicas do reino animal com nádegas, seios salientes e arredondados para a sedução. Atingem um orgasmo mais intenso que o dos homens. Como somos uma espécie ereta, não podem correr ou caminhar logo depois da fecundação: precisam continuar deitadas, contraídas, exaustas, com sono, para não deixar escapar o esperma do parceiro, não perder o que interessa, o DNA. 

O clitóris tem cinco vezes mais terminações nervosas que o pênis. Portanto, é cinco vezes mais sensível. Meu primeiro filho era uma filha, segundo poderosos ultrassons. Num feto, o clitóris nasce antes. O pênis aparece três ou quatro meses depois. O do meu filho apareceu depois.

Deduzi que o pênis é, portanto, filho de um clitóris, desenvolvido a partir dele, um clitóris com base. Perceba: sua ponta, os capitéis com uma voluta, tem o formato de um clitóris. A glande masculina, que manipulada dá prazer, é um clitóris menor e menos evoluído, teorizo.

A capacidade dos humanos de se reproduzir é espetacular. Não se sabe de outras símias que tenham orgasmos; um orgasmo que a evolução postergou para depois do gozo do macho. Não se sabe de outra espécie que conheça lábios externos, sensíveis e salientes, ou orelhas com lóbulos, verdadeiros receptáculos erógenos, pequenas fábricas que, se bem manipuladas, dão prazer. 

Não se sabe de outra fêmea que faça sexo mesmo fora do período de reprodução, a ovulação, e que faça sexo durante a gravidez, ou semanas logo depois do parto. Por isso, demos certo. Enquanto primatas. Porque enquanto animais políticos...

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