''Evitei crueldades para não assustar''

Na continuação da entrevista da capa, Isabel Allende fala sobre sua misteriosa dor de estômago.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2010 | 00h00

Os outros personagens femininos de seus livros são parecidos com Zarité?

Em geral, as mulheres de meus livros são apaixonadas, fortes, solidárias, leais, boas mães, boas amigas, boas filhas, todas precisam vencer grandes obstáculos para conquistar sua liberdade ou para cumprir seus destinos. Zarité é o caso extremo, porque nasceu escrava.

E a misteriosa dor de estômago que a atacou ao escrever o livro?

A investigação do tema da escravidão foi muito dura, pois me dei conta da extrema crueldade e violência que os seres humanos são capazes de exercer contra os mais fracos. Não há pior combinação que poder absoluto com impunidade. Os amos mantinham essa classe de poder contra seus escravos (o mesmo poder do torturador sobre sua vítima). No livro, faço referência à crueldade dos castigos e às condições de vida dos escravos, mas não as descrevi em detalhes porque quis evitar, aos meus leitores, o mesmo horror que senti. Passei quase dois anos com inexplicáveis dores de estômago e náuseas, precisava dormir sentada pois, na horizontal, vomitava. Fiz diversos exames e tomei toda a classe de remédios, mas nada ajudou. Meu marido, que me conhece bem, dizia que os sintomas passariam tão logo eu terminasse o livro, pois assim eu sacaria da minha cabeça aquelas imagens da cabeça. Assim foi. Terminei o texto e não mais senti dores no estômago.

Fala-se muito sobre as mudanças sofridas no mundo depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001. Foi mesmo um fato determinante?

Terça-feira, 11 de setembro de 1973, golpe militar no Chile, atentado terrorista contra a democracia chilena, milhares de mortos, mudança fundamental na consciência coletiva do país e consequências que perduram por décadas. Terça-feira, 11 de setembro de 2001, ataque às torres gêmeas em Nova York, atentado terrorista contra a democracia americana, milhares de mortes, mudança fundamental na consciência coletiva do país e consequências que ainda perduram. Estranha coincidência, não?

A senhora gostou das diversas adaptações de seu romance Zorro, no cinema e na Broadway?

Os direitos continuam com a Sony e sei que estão cuidando de uma nova versão para o cinema. O filme anterior, com Antonio Banderas e Catherine Zeta-Jones, me agradou muito, bom entretenimento. Já o musical alcançou um enorme sucesso na Inglaterra e logo chegará aos Estados Unidos. É uma produção espetacular: música, canto, dança, aventura, acrobacias, efeitos especiais, duelos de espada.

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