Evita, insepulta em um conto

A ''mãe'' dos descamisados é personagem de Essa Mulher, que reúne histórias de três livros

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

A qualidade da literatura argentina sempre dependeu da qualidade de seus monstros, escreveu o crítico Carlos Gamerro. De Rodolfo Walsh, Gamerro disse numa entrevista que ele cumpriu o papel que todos esperam de um escritor nas ditaduras: que seja a garantia da palavra diante do silêncio e da verdade diante do ocultamento. Walsh foi além disso. Seus contos revelam uma atitude distinta de Operação Massacre. "Um uso político da literatura deve prescindir da ficção", escreve Ricardo Piglia num ensaio sobre ele. "Esse é o grande ensinamento de Walsh", conclui, defendendo que sua construção literária "é antagônica à estética urgente do compromisso".

Piglia cita como exemplo um dos contos de Essa Mulher, intitulado Cartas. Nele, partindo de um povoado da província de Buenos Aires nos anos 1930/1940, Walsh, segundo Piglia, "constrói um pequeno universo joyciano, uma espécie de microscópico Ulisses rural". De fato, a garota Estela, que começa o conto desenhando na paredes com os dedos, traduz de maneira trágica a amargura de alguém condenado a viver em meio a latifundiários e analfabetos.

Dois dos contos de Essa Mulher foram publicados anteriormente no Brasil, dentro de antologias temáticas organizadas por Flávio Moreira da Costa: o que dá título ao livro e Nota de Rodapé. O primeiro é uma paródia da necrocracia argentina. Começa com um coronel elogiando a pontualidade "germânica" de um jornalista que vai entrevistar o militar sobre a exumação do cadáver de uma mulher (Evita, nunca mencionada). À medida que o repórter vai descobrindo falsas telas de Jongkind e Figari nas paredes do coronel, o leitor forma igualmente o retrato do patético oficial, que enterra Evita de pé, como Facundo, "porque era macho". Em uma só frase, Walsh fala do passado remoto argentino, citando o caudilho Juan Facundo Quiroga, sepultado, de fato, em pé, associando-o ao corpo insepulto da mãe dos descamisados.

Os melhores contos do livro fazem parte dessa primeira parte, extraída de Os Ofícios Terrestres, publicado originalmente em 1965. Seguiram-se Um Quilo de Ouro (1967) e Um Escuro Dia de Justiça (1973). De todos, o mais tocante é Nota de Rodapé, sobre o suicídio de um tradutor. É dele a frase que ecoa pelo território argentino: "Ninguém pode viver com os mortos, temos de matá-los dentro de nós, reduzi-los a uma imagem inócua, para sempre segura na neutra memória."

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