Eventos celebram centenário de Rebolo

Uma sucessão de eventos está sendo organizada este ano para comemorar o centenário de nascimento de Francisco Rebolo Gonzales (1902-1980), que servirá não apenas para relembrar a qualidade da obra de um dos mais importantes pintores brasileiros do século passado, mas também para trazer à luz um momento importante da arte paulista que muitas vezes fica ensombrecido entre dois eventos fulgurosos: a Semana de Arte Moderna e o surgimento do movimento concretista, já na década de 50. Um site já foi lançado no mês passado (www.uol.ciom.br/franciscorebolo), será lançado um livro sobre sua vida e obra e reeditada uma publicação com cerca de 300 páginas que contém um vasto número de reproduções de obras. Em 29 de agosto, o Museu de Arte Moderna de São Paulo inaugura uma grande retrospectiva da obra do pintor, que promete ser o ponto alto das festividades do centenário. Trata-se de uma homenagem mais do que justa, se lembrarmos que o artista participou do movimento para a criação do museu e promete ser um dos principais eventos de arte brasileira deste ano. A mostra também deve itinerar posteriormente pelos espaços do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em outras cidades. Outras celebrações, organizadas pelo Corinthians, relembrarão o Rebolo jogador de futebol (ele foi jogador do time entre 1922 e 1927 e autor do atual símbolo do clube, desenhado em meados da década de 30). Todos esses eventos servem como ponto de partida para a realização de catalogação completa de sua obra - calcula-se que Rebolo tenha produzido mais de 3 mil pinturas e um conjunto significativo de desenhos - e para a criação do Instituto Rebolo, a ser implantado em 2003. O nome de Rebolo está intimamente associado ao do grupo Santa Helena - associação informal entre artistas como Zanini, Pennacchi, Volpi e Bonadei, que tirou seu nome do prédio onde mantinham seus ateliês - e a uma série de outros movimentos importantes como o Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo e a Família Artística Paulista, mas sua obra é extremamente personalizada, marcada por um grande lirismo, e dificilmente pode ser enquadrada em escolas e estilos coletivos. Como escreveu Sérgio Milliet, "Rebolo não é um intelectual, despreza as teorias complicadas e só acredita na experiência humana do pintor". Seu grande tema foram as paisagens, marcadas por uma simplicidade e liberdade construtivas e pelo uso de cores alegres, capazes de criar atmosferas ao mesmo tempo vibrantes e tranqüilizantes. Como bem definiu Roger Bastide, em texto reproduzido no site oficial do pintor, suas pinturas trazem "casinhas ingenuamente postas umas ao lado das outras, como brinquedos de crianças, bem delimitadas, que ainda não tiveram tempo de incorporar-se à paisagem, como se soubessem que são efêmeras, à espera que o prefeito as faça demolir para construir em frente prédios altos. Colinas tristes e doces, verdes tímidos que se querem fazer esquecer (...)"Aprendizado - Mas as paisagens não são o único gênero trabalhado por esse descendente de espanhóis, que começou a trabalhar aos 12 anos de idade como entregador, que aos 13 já mexia com tintas (mas como auxiliar de pintor) e aos 15 já estava ganhando parte de seu sustento nos campos de futebol. Rebolo produziu um vasto número de retratos e naturezas-mortas, que têm o mesmo ar ingênuo e lírico de suas belas paisagens. Durante muitos anos Rebolo trabalhou como artista-decorador e apenas em 1933 instalou-se no ateliê do Palacete Santa Helena, para onde atraiu pouco a pouco os outros integrantes do movimento. Ia buscar as cenas de suas telas no mundo à sua volta, pintando ao ar livre nos arredores, retratando a cidade que se transformava dia a dia e que via pela janela de seu ateliê. "O registro do cotidiano realizado por Rebolo tem o caráter de um diário íntimo (...). Procura documentar a própria vivência, de uma maneira pessoal", sintetiza a diretora do MAC, Elza Ajzemberg.

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