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Psicólogos, fotógrafos, cineastas e crianças discutem relações humanas após coronavírus em evento virtual do Sesc Sesc

Evento virtual do Sesc debate luto, crianças em isolamento social, fotografia e paisagem urbana

Psicólogos, fotógrafos, cineastas e crianças discutem relações humanas após novo coronavírus

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2020 | 10h36

A série Ideias, promovida pelo Sesc São Paulo por intermédio de seu Centro de Pesquisa e Formação, traz debates virtuais sobre as principais questões que da agenda sociocultural e educativa atual. Diante da pandemia do novo coronavírus, o objetivo é incentivar a reflexão no contexto desafiador em que vivemos. As conferências acontecem pelo canal do YouTube do Sesc São Paulo, às 16h, com participação do público e tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Na terça-feira, 13, a mesa "O Luto frente à Pandemia" discute os diferentes tipos de luto em tempos de coronavírus, que atingiu a saúde emocional de todos. Processos de luto individual e coletivo, a perda de entes queridos e a ausência de ritos tradicionais de despedida, as mudanças de rotina, o cancelamento ou adiamento de planos e o desemprego também serão explorados.

O debate terá a presença da psicóloga Maria Helena Pereira Franco, professora titular da PUC-SP no programa de pós-graduação em Psicologia Clínica e coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da mesma instituição, e de Gabriella Costa Pessoa, mestra em Psicologia Clínica pela PUC-SP, colaboradora fundadora do Programa de Acolhimento ao Luto do departamento de Psiquiatria (PROALU) da UNIFESP e colaboradora do Instituto Vita Alere (de Prevenção e Posvenção do Suicídio). A apresentação é de Dulci Lima, pesquisadora do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, com mediação de Ivani Oliveira, psicóloga e integrante da organização negra Kilombagem.

Na quinta, 15, a série traz o debate "Agora é com Elas - A Voz das Crianças", que abre espaço para ouvir o que elas têm a dizer a respeito do período de isolamento social. Muito se discute sobre as novas forma de educar em tempos de pandemia, aulas on-line, excesso de tempo em frente às variadas telas disponíveis, a pouca convivência entre os pequeno e a falta de espaços para brincar. Mas o que eles têm a nos dizer sobre tudo isso? 

A conversa, que conta com a mediação de Andreia Reis, arte-educadora, mestre em Arte Cênicas e educadora dos programas Curumim e Juventudes no Sesc Sorocaba, e apresentação de Marcos Takeda, arte-educador, artesão e educador do programa Curumim no Sesc Rio Preto, tem a participação de Cecilia Silva, de 9 anos, participante do Curumim Sesc Ipiranga, João Lucas Rodrigues Zani, de 10, do Curumim no Sesc Rio Preto e Maria Clara Ferreira Nascimento, de 13, estudante, youtuber do canal Pretinha Sim e integrante do Curumim no Sesc Sorocaba.

Na sexta-feira, 16, o bate-papo "São Paulo Vista de Cima: Fotografia e Paisagem Urbana" aborda a relação entre fotografia e paisagem urbana, tendo como ponto de partida o livro "São Paulo Vista de Cima", lançado recentemente pelo fotógrafo Cássio Vasconcellos, que participa do debate ao lado da também fotógrafa e artista plástica Claudia Jaguaribe. A obra traz uma reflexão sobre as transformações que perpassam a arquitetura monumental, a ocupação urbana, as restritas áreas verdes e certa organização estética do caos que habita a cidade. A apresentação é de Eder Martins, mestre em história social pela PUC-SP e pesquisador no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, com mediação de Francisco Alambert, doutor em História pela USP, historiador e crítico de arte.

Fechando a série de debates, no sábado, 17, acontece a conversa "O Prazer dos Olhos", que trata das investigações contemporâneas do olhar. Estarão em pauta as ideias e ações audiovisuais de um novo tempo de observar e enxergar, diálogos e reflexões sobre a criação de imagens poéticas e cinéticas, inventividade e inovação. 

O debate conta com as presenças de Julia Zakia, diretora e fotógrafa, Biarritzz, artista transmídia e Patricia Ferreira Pará Yxapy, cineasta indígena brasileira. A apresentação é de Solange Alboreda, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC- SP, curadora de cinema ambiental e técnica do SescTV, com mediação de Lucila Meirelles, videoartista, diretora de vídeo e TV e mestra em Artes Visuais.

Desde o final de agosto, cinco meses após a suspensão majoritária do atendimento presencial nas unidades, o Sesc São Paulo anunciou uma parcial e gradativa retomada, com um número restrito de atividades, dirigidas aos alunos que já eram inscritos nos cursos de Ginástica Multifuncional, Práticas Corporais e Corrida, além de pacientes das Clínicas Odontológicas cujos tratamentos foram interrompidos pela pandemia. Todas essas atividades serão previamente agendadas, visando restringir a circulação de público no interior das unidades. 

Todas as 40 unidades do estado darão início a essa retomada gradual à medida que os municípios em que estão instaladas atinjam a classificação necessária para reabertura, estabelecida pelo Plano São Paulo do Governo do Estado, e em conformidade com as regulações municipais.

Paralelo à retomada gradual de alguns serviços presenciais, a instituição segue oferecendo um conjunto de iniciativas on-line, que garante a continuidade de sua ação sociocultural nas diversas áreas em que atua. 

Pelos canais digitais e redes sociais, o público pode acompanhar o andamento dessas ações e ter acesso a conteúdos exclusivos de forma gratuita e irrestrita. Confira a programação do #EmCasaComSesc.

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Mapeamento revela que 53% dos brasileiros têm mais alteração de humor no isolamento social

Ao mesmo tempo, brasileiros descobriram formas de sobreviver ao caos provocado pela pandemia de covid-19 e manter a mente sã

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2020 | 10h00

Pare para pensar por um instante e tente se lembrar de como você estava se sentindo em meados de março, quando o Brasil praticamente parou por causa da pandemia do novo coronavírus. Comércio fechado, ruas desertas, algumas empresas adotando o home office. Todos tentando adaptar suas rotinas, seja cumprindo isolamento social ou, com a necessidade de sair para trabalhar, se protegendo contra a covid-19.

Um sentimento de fragilidade. De impotência diante do desconhecido. De ameaça. Assim estava a jornalista Débora Costa e Silva, de 34 anos, que é redatora publicitária. “O que tive foi muito medo, muito pesadelo, muita ansiedade. Fique apavorada e comecei a ter pesadelo com as coisas. Fiquei com mais medo e muita tristeza”, relembra. 

Um estudo conduzido pelo Instituto Bem do Estar e pela NOZ Pesquisa e Inteligência mapeou a saúde mental durante a pandemia. Realizado com 1.515 brasileiros de todas as regiões, idades e classes sociais, o levantamento avaliou questões como hábitos e rotinas, sentimentos e reações físicas, e impacto na alimentação e na libido de casados e solteiros entre 7 e 31 de maio de 2020. O perfil da amostra é composto por 21% homens, 71% mulheres e 7% não informado. A maior parte dos entrevistados (75%) mora no Estado de São Paulo, epicentro da pandemia no Brasil, e 25% distribuídos por todas as regiões do País. 

O medo foi o sentimento predominante durante o período analisado para 71% dos entrevistados, seguido do aumento da preocupação e insegurança. “Analisando os depoimentos coletados na pesquisa fica claro que o medo não é proveniente de um só fator mais de todas as consequências causadas pela pandemia, tanto relacionadas à saúde - ficar doente, contaminar alguém e até mesmo da morte -, mas também das consequências econômicas, como perda de renda e desemprego”, ressalta a pesquisadora Juliana Vanin. 

Um participante do estudo, cuja identidade será preservada, chegou a confessar: “Eu estou muito nervoso com essa situação. Eu me sinto preso. Tenho medo, me sinto sob pressão. Vejo tantas mortes e temo por pessoas próximas a mim. Isso é o que mais me deixa nervoso, ansioso e sob pressão. Estou vivendo um turbilhão de emoções e tento não surtar. Apesar de estar bem, a sensação de insegurança é um fantasma que me acompanha. Como queria que tudo isso acabasse”.

A engenheira florestal Gabriela Alejandra da Cruz Malpeli, de 36 anos, também identificou as mesmas emoções. “No começo da pandemia, eu estava mais preocupada com a doença, com o senso de proteção contra o vírus. Não fiquei tão preocupada comigo, com o que eu estava sentindo, então, estava mais focada no vírus e formas de me proteger contra ele”, conta. 

 

Antes do isolamento social, Gabriela saia para caminhar ou correr todos os dias em um parque na cidade de Piracicaba, onde mora. Mas o local foi interditado. “Logo no começo da pandemia o parque fechou e eu senti que precisava buscar alguma coisa. A academia não fechou no mesmo momento, mas depois. Foi questão de dias para as coisas irem fechando. Vi no Facebook uma amiga ioga online e ela me ofereceu. Ela é professora de ioga e me chamou pra fazer”, diz. Anne Rocha, amiga de Gabriela, foi a grande responsável por incentivar a prática em tempos de quarentena. “Senti as mudanças no mesmo dia. Sou uma pessoa que, quando fico emocionalmente ‘mexida’, sinto muita tensão no corpo, então, a ioga é uma forma que encontrei para relaxar. Depois da ioga consigo focar mais nos estudos”, ressalta a engenheira florestal, que agora faz outra graduação, online, de Engenharia Agronômica na Unifesp.

 

 

Sobre a realização de atividades ligadas à mente e à rede de apoio, 28% dos entrevistados da pesquisa Saúde da Mente & Pandemia apontam que estão praticando meditação e 13% ioga. “Notamos claramente os benefícios que atividade física pode gerar para a saúde mental, especificamente no período de isolamento. Quando comparamos a prática de atividade física e o aumento de sentimentos vinculados à depressão e ansiedade percebemos, por exemplo, que enquanto 61% dos que reduziram a atividade física se sentiram mais desanimados devido ao isolamento social, entre os que conseguiram aumentar muito a frequência esse número caiu para 38%”, informa Juliana Vanin, da Noz Pesquisa e Inteligência.

Em relação aos sintomas físicos, entre os que diminuíram a frequência dos exercícios, 37% afirmaram sentir mais dores de cabeça. Outra reação que teve grande aumento foi a insônia: metade dos pesquisados, 51%, afirmaram ter dificuldade para dormir.

Assim como Gabriela, Débora Costa e Silva também fez de tudo para que a sensação de medo e insegurança não tomassem conta dela. Ao perceber que ficaria em isolamento social por muito tempo, a jornalista redescobriu uma paixão que estava relativamente ‘adormecida’: a música. Então, ela decidiu organizar as próprias lives, se apresentando para amigos nas redes sociais. 

“O que me ajudou foram as lives de música que fiz. Foi um alento porque me distraí, resgatei um prazer por algo que estava um pouco adormecido. Na quarentena pensei: ‘Puxa, vou usar esse tempo para fazer uma coisa que eu gosto’. E também tive aquele sentimento de urgência: ‘Ah, o mundo está acabando, a morte está à espreita e eu não estou fazendo o que eu gosto com todas as forças’. E realmente é um ânimo. Eu preparo um repertório, faço foto e tudo. Comecei a me soltar e virou um momento de diversão e de encontro com meus amigos. Então, faz bem pra mim. Achei quase que um propósito”, afirma. 

As lives de Débora foram ficando mais sofisticadas e ela chegou a transmitir apresentações temáticas, como um ‘bailinho anos 1980’ e uma homenagem às divas da música mundial.

 

Assista ao vídeo:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Débora Costa e Silva (@dregola) em

 

Isabel Marçal, cofundadora do Instituto Bem do Estar, avalia que estamos vivendo um dos momentos mais desafiadores da história humana. “Um cenário de incertezas, medo, perdas, alteração substancial da nossa rotina diária e divergências  de informações sobre como se proteger. Diante deste panorama, as oscilações de humor são normais e mais frequentes, mas não podemos deixar de nos atentar a elas”, ressalta. 

Além disso, na opinião dela, a saúde mental agora precisa de ainda mais atenção: “Muito tem se falado e estudado sobre saúde mental pós-pandemia, com um aumento considerável de transtornos compulsivos obsessivos (TOC) e neuroses. Para diminuir o impacto da pandemia em nossa saúde da mente, precisamos adotar ações coletivas, como abrir espaços que impulsionem o debate, a troca de experiências e a escuta de novas visões e percepções em relação ao tema”. 

É preciso diminuir o estigma que a saúde mental carrega e dar voz para as pessoas falarem sobre o assunto, sem os julgamentos que acabam calando e sufocando o indivíduo. As próximas etapas da pesquisa Saúde da Mente & Pandemia, que acontecerão entre agosto e novembro, prevêem a ampliação no número de respondentes e do perfil da amostra, com particularidades e desafios das periferias, juventudes e novo ambiente de trabalho. 

Ao final do levantamento haverá cinco mapeamentos públicos: o primeiro em agosto com a análise desta primeira etapa; os seguintes referentes aos três recortes de perfis (novembro de 2020) e, em janeiro de 2021, o mapeamento final com a comparação dos dados levantados e uma análise propositiva do impacto do isolamento social na saúde da mente. 

“Observamos que entre as pessoas que estavam saindo menos de uma vez por semana durante o período que realizamos a pesquisa, 70% estavam se sentindo mais emotivos. Quanto maior o nível de isolamento, maior o porcentual de pessoas com aumento dos sentimentos e reações físicas ligados à ansiedade e depressão. Entretanto, é extremamente importante observar que entre os que estavam saindo cinco ou mais vezes por semana, que abrange as pessoas que mantiveram sua rotina profissional fora de casa, os porcentuais são intermediários. Além disso, o porcentual de pessoas com aumento da sensação de medo e preocupação excessiva foi bastante alto, 65% e 67% respectivamente”, conclui a pesquisadora Juliana Vanin.

Os dados sinalizam as possíveis consequências na saúde mental causadas pela pandemia e pela falta de políticas uniformes de isolamento, que provavelmente poderiam ter reduzido seu tempo e a taxa de contágio. Porém, essas tendências serão validadas nas próximas etapas do projeto que seguirão até janeiro de 2021 com o mapeamento final, “Sociedade de Vidro na Pandemia”, que contará com a comparação dos dados levantados e uma análise propositiva do impacto do isolamento social.

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