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Evento em Minas presta tributo à arte de Lucrecia Martel

Homenageada da Mostra de Belo Horizonte, autora argentina realiza o filme ‘Zama’, uma coprodução com o Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2015 | 19h44

Imprensada entre o Festival do Rio, que terminou dia 14, e a Mostra de São Paulo, que começa dia 22, a Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte ocorre de 15 a 22 na capital mineira. É o fecho deste ano do programa Cinema sem Fronteiras, criado e executado pela Universo Produção. Começa em janeiro com a Mostra de Tiradentes e, dentro dela, com a Mostra Aurora, que abre janelas para novas linguagens - e novos autores - do cinema brasileiro. Prossegue em junho, com o Festival de Ouro Preto, destinado à memória e preservação de clássicos. E encerra-se em outubro com a Mostra de BH, voltada à discussão do cinema contemporâneo.

O evento iniciou-se quinta-feira à noite com a exibição de Mate-me por Favor, de Anita Rocha da Silveira, premiado no Festival do Rio. Também neste dia houve a homenagem a Lucrecia Martel, em presença da importante autora argentina. Antes de embarcar para o Brasil, ela concedeu uma entrevista ao Estado, por e-mail. Lucrecia monta seu novo filme - lentamente, como explicou. Zama é uma coprodução brasileiro-argentina. A parceira do Brasil é a Bananeira Filmes, de Vânia Cattani, que também produz Mate-me Por Favor. Lucrecia diz que ainda não sabe o que vai ser o novo filme, que se desenha na edição. Mas anuncia - "Estou gostando". Suas respostas, divididas em blocos:

La Ciénaga. O filme acaba de sair em Blu-Ray na Criterion Collection. Segue sendo o melhor de Lucrecia. A piscina degradada, os corpos. "Voltei a vê-la em Los Angeles para a correção da cor na edição da Criterion. Fazia muito frio na sala, é minha maior lembrança. Mas creio que o filme seguia bem."

Personagens. "Não se pode fazer um filme pensando em personagens como representativos de classes sociais. Penso neles como monstros, como seres fenomenais cheios de exceção que se escondem em seus vestuários, mas deixam escapar algum tentáculo fosforescente que nos revela sua verdadeira natureza."

Roteiro. "Escrevo sozinha. Dou muitas voltas e isso é difícil quando se está acompanhada. Em geral, quando começo a escrever já fiz muitas anotações. Isso me facilita escrever as cenas."

Terror. Sua avó lhe contava histórias assustadoras, quando ela era pequena. A impressão permaneceu. "O cine de terror, que quase nunca vi com som e sempre de luz ligada, me parece muito revelador. A gramática do espaço, a aceitação do incerto, tudo isso foi uma boa escola para mim, mas rejeito o conservadorismo moral, os excessos metafóricos e, ultimamente, a tendência à tortura, que me parecem infantil e chata. Com respeito a certas questões físicas, que remetem à sexualidade em meus filmes, uma garota me disse, há uns seis anos, no Rio, que notava certo fetichismo com a pele e os cabelos das personagens. Creio que tinha razão."

Violência. "Não suporto a violência dos filmes. Os tiros, as facadas. Não entendo por que alguém precisa disso para contar uma história. Para mim, são excessos que não revelam nada da espécie humana que não estejam representados nas cavernas. Os desfalques financeiros que condenam milhões à pobreza, as transferências de somas milionárias pela indústria mais eficiente do capitalismo, o narcotráfico, tudo isso se faz em salões elegantes, com ar-condicionado e por pessoas perfumadas, que comem comidas sem glúten e livres de gorduras saturadas. Essa é a violência que deveríamos desmascarar. A outra só serve para estigmatizar os pobres."

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