Kika Dardot/Divulgação
Kika Dardot/Divulgação

Evento consagra nomes da cena local

Em sua 20ª edição, mostra revela emergência de criadores curitibanos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2011 | 00h00

CURITIBA - O Festival de Curitiba atirou no que viu e acertou no que não viu. Na hora de montar a programação deste ano, os curadores se preocuparam em apontar o fortalecimento de uma vertente nacional: a dramaturgia.

Foi dentro desse espírito que a mostra paranaense elegeu a emergência de jovens autores como ponto de interesse. A grade oficial tratou de sublinhar uma nova geração, principalmente carioca, que despontou há menos de uma década e dá, agora, os sinais de uma produção mais alentada. Mas, certamente não encontramos aí o que essa 20.ª edição apresentou de notável.

Ainda que tenha acertado em algumas escolhas do eixo Rio-São Paulo, em 2011 Curitiba não se destacou pelo que trouxe de fora. Ao contrário. Surpreendeu pelos sinais de fortalecimento que o seu próprio teatro exibe.

No Fringe, grupos locais de renome revelaram continuidade de suas pesquisas estéticas, aprofundando inquietações. Com Oxigênio, talvez o melhor espetáculo visto nesta edição, a Cia. Brasileira de Teatro mostrou como a maturidade de um conjunto de artistas pode vir acompanhada de frescor e vivacidade. Já a Cia. Marcos Damaceno se firmou pela segurança com que conduziu Antes do Fim. Apoiado no texto do paranaense Marcelo Bourscheid, Damaceno erigiu uma encenação que, sem solapar os vínculos com a tradição do teatro dramático do século 20, não deixou de abrir espaço para a vertente narrativa da obra nem para seus escapes líricos.

A cena da cidade se redesenha também pelo surgimento de uma novíssima leva de dramaturgos. Nomes que não aparecem ligados por uma temática. Não é disso que se trata. Mas que compartilham de um anseio: a invenção de outras possibilidades de se construir narrativas cênicas.

Voltada a novas estratégias de dramaturgia, a mostra Outros Lugares evidenciou autores principiantes. Luiz Felipe Leprevost sobressaiu-se aí com O Butô do Mick Jagger, espetáculo tão irregular quanto promissor. Mais consistente é Hieronymus nas Masmorras, criação de Leprevost que integrou a Mostra Sesi de Dramaturgia e mereceu leitura potente de Roberto Alvim, da paulistana cia. Club Noir.

No mesmo caminho de recusa às formas dramáticas convencionais, encontramos alguns experimentos curitibanos. Homem-Piano, da CiaSenhas de Teatro, confirma o pendor performativo da cena atual. Outros trabalhos mantêm no horizonte o desejo de contar uma história. A Pausa Cia. consegue passear com graça pelos contos de Machado de Assis em Roteiro Escrito com a Pena da Galhofa e a Tinta do Inconformismo. Já no aparentemente despretensioso Ela i Eu Ou Nada Que Transpareça o cômico serve de disfarce para uma reflexão sobre a metalinguagem e os procedimentos próprios do teatro contemporâneo.

Em meio a tantas propostas não é fácil encontrar pontos de convergência. A linguagem surge manejada de formas diferentes. Com graus distintos de elaboração e acabamento. A amalgamar tudo isso talvez só reste uma certeza: nos próximos anos, prometem soprar do Sul os ventos que movimentam o novo teatro brasileiro.

* A repórter viajou a convite da organização do festival.

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