Eva e Adele, dupla alemã de drags, é versão debochada

Análise: Antonio Gonçalves Filho

O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 03h08

Um inglês encontra um italiano em setembro de 1967. Os dois estudam escultura na St. Martin's School of Arts. George Passmore é o único que entende o inglês rudimentar de Gilbert Prousch na escola. Resultado: estão juntos até hoje, vestindo ternos iguais e pensando como uma só cabeça, às vezes provocativa, outras vezes conservadora como a roupa que usam. Vivem até hoje no East End londrino, transformado num microcosmo do que imaginam ser o mundo da arte, onde ingressaram como duas esculturas cantantes numa performance, três anos depois do primeiro encontro. O resto da história é mais ou menos conhecido: Gilbert e George fazem fotos autorreferenciais e já provocaram bastante barulho com séries que ofendem os mais puritanos - imitando santos de vitrais ou exibindo a nudez de garotos de programa - ou a esquerda trabalhista - com declarações favoráveis aos monarquistas.

Socialismo, diz a dupla, é para gente que gosta de igualdade. Eles querem é ser diferentes. Gilbert e George criaram sua série mais famosa, a Jack Freak, para discutir aspectos do nacionalismo inglês, usando a bandeira britânica nessa obra icônica ambientada no East End de Londres (há mapas, sinais e grafites que reproduzem o ambiente onde vivem). Talvez inspirados pela dupla, os alemães Eva e Adele juntaram forças para criar dois tipos que podem ser vistos nas bienais e feiras de arte internacionais desde 1997.

Ninguém conhece os verdadeiros nomes desses dois seres que se dizem alienígenas e desembarcaram em Berlim, segundo eles, após a queda do muro, em 1989. Vindos ou não do espaço, Eva e Adele vestem-se com a mesma roupa, a exemplo de Gilbert e George. Mas são roupas femininas, multicoloridas, extravagantes, que aproximam os dois carecas do universo das drag queens. Montados, percorrem as exposições em silêncio, concorrendo com as obras expostas. Ao contrário da dupla inglesa, seus trabalhos não precisam de suporte. Eles são "a obra". Como Gilbert e George, Eva e Adele também se casaram. Eva tem a voz mais grossa. Julga-se uma mulher no corpo de um homem. Pediu ao juiz que mudasse sua certidão, antes de aceitar Adele como esposa. São hoje um feliz casal de lésbicas, morando num apê chique de Charlottenburg.

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