Eustache e os vícios da nouvelle vague

No longa A Mãe e a P..., o diretor francês, morto em 1981, trata com nostalgia o Maio de 1968

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2011 | 00h00

Foi uma sensação ao ganhar o grande prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 1973, mas hoje está reduzido a uma curiosidade antropológica sobre como viviam os jovens franceses após a revolução sexual dos anos 1960. A história de A Mãe e a Puta (La Maman et la Putain) resume-se a um triângulo amoroso em que nenhum dos personagens é suficientemente interessante para despertar, hoje, desejos de análise. O intelectual Alexandre (Jean-Pierre Léaud) tem duas namoradas, mas pode apostar que nem Marie (Bernadette Lafont) nem Veronika (Françoise Lebrun) conseguem ver nele um misógino, o que transmite uma ideia aproximada da alienação das duas. No entanto, Françoise Lebrun, que beira a histeria, parece levar a melhor na luta por seu homem. Bernadette, que posa de ciumenta, acaba incorporando a figura da mãe, que, naturalmente, vai para a cama com o filho simbólico.

O diretor Jean Eustache (1938-1981) dizia não conseguir identificar diferenças entre a figura da mãe e da puta. Todo homem, segundo sua teoria, gostaria de ter as duas numa única mulher, como numa lata de marmelada. Isso, no caso do personagem de Jean-Pierre Léaud, é a pura verdade. Ele passa pelo filme falando pelos cotovelos, fumando e filosofando com a profundidade de um prato raso. Diz coisas como "toda mulher pertence ao homem que a resgatou" ou frases ainda piores. Eustache, obviamente, tinha Godard em mente, mas não a mente de Godard. Tinha também um fascínio pelas mulheres, a exemplo de Truffaut, mas faz delas objetos sexuais que eventualmente se rebelam contra sua condição.

São 215 minutos que deveriam conter a obra-prima da Nouvelle Vague francesa, mas, passados 38 anos, o que se pode dizer de Eustache é que ele não tinha o punch de outros cineastas do movimento. Morreu cedo, aos 43 anos, e, portanto, talvez seja injusto dizer que fosse desprovido de talento. O intelectual interpretado por Léaud no filme - derivado de outros que povoam os filmes de Godard - tinha algo do realizador. O Alexandre de A Mãe e a Puta é um tipo excêntrico, que vive com e explora sua amante Marie, dona de uma pequena boutique. Na sequência inicial, ele pede emprestado o carro de um amigo, segue uma antiga namorada, Gilberte (Isabelle Weingarten), propõe casamento a ela, recebe um não como resposta, mas não desanima. Em seguida será visto no Deux Magots, tentando conquistar Veronika Lafont, uma enfermeira de comportamento promíscuo como o protagonista.

O triângulo formado por Léaud, Lafont e Lebrun é Jules e Jim revisitado de outra forma, ainda mais amarga, pois A Mãe e a Puta tem nostalgia da liberdade prometida pelo maio de 1968. Bertolucci usou o mesmo tema e saiu-se melhor com Os Sonhadores, lançado em 2003.

A MÃE E A P...

Direção: Jean Eustache

(França/ 1973, 217 minutos).

Distribuidora: Lume.

Preço: 39,90

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