Europalia: mais de 400 eventos e menos verbas

Instabilidade caracterizou negociações para festival belga

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

No fim de janeiro, quando o artista Adriano de Aquino foi convidado pela ministra Ana de Hollanda para tomar as rédeas da apresentação no festival belga Europalia, que este ano homenageia o Brasil, herdou duas missões: criar em quatro meses a programação cultural para o evento e, principalmente, reduzir os recursos da proposta anterior do curador Paulo Herkenhoff (que seria de cerca de R$ 70 milhões, segundo o secretário executivo do MinC, Vitor Ortiz).

Houve um momento, na troca do governo Lula para o de Dima, que o projeto "quase caiu", conta Aquino. Mas o Europalia Brasil, que será inaugurado em 4 de outubro, na Bélgica, acaba de fechar sua programação: terá 470 eventos, realizados com R$ 28 milhões de recursos federais e aporte de 10 milhões dos belgas.

"Se tudo correr bem com as produtoras, tudo tem de chegar ao porto de Antuérpia até 15 de setembro", diz Aquino ao Estado, referindo-se às 1.700 obras de arte brasileira que vão integrar 13 exposições do Europalia Brasil, marcado para ocorrer até 15 de janeiro. E do grupo de peças selecionadas para as mostras, cerca de 10, pertencentes à instituições privadas e públicas, ainda estão com seus empréstimos indefinidos - e em alguns casos, a ministra terá de intervir.

O acordo entre os dois países foi firmado no ano passado, mas a programação brasileira do festival europeu, bienal, só começou a ser providenciada em março. As artes visuais têm grande peso, mas há ainda cerca de 300 atrações de música e dança, apresentações de teatro e circo e eventos de literatura e cinema em mais de 200 espaços culturais da Bélgica e países vizinhos. A estimativa é a de que o festival ultrapasse os 2 milhões de visitantes de sua edição anterior, dedicada à China.

A sala 46 do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, foi destinada à pequena equipe, "leve e barata" - com quatro pessoas - montada pelo curador-geral Adriano de Aquino para executar o festival. O Ministério da Cultura ainda acionou os órgãos federais Funarte, Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), Iphan ( do patrimônio histórico), Ibama (meio-ambiente) e Funai (dos índios) para colaborar na força-tarefa. O diretor de relações internacionais do MinC, Marcelo Dantas, ficou responsável pela questão financeira e institucional do evento.

"Não havia projeto, não havia perfil. Recebi no dia 5 de fevereiro três folhas escritas em francês pelo grupo belga", diz Aquino. A instablidade do Europalia Brasil desde o início do ano aliada à "insegurança razoável" que existe na área cultural, como diz o curador-geral do evento, tiveram de ser, enfim, contornadas. "Tive de tirar algumas gorduras, como as mostras individuais de artistas e equilibrar uma equação: como pode um curador ser mais caro que 30?", continua Aquino, fazendo referência velada a seu antecessor. O núcleo de artes visuais conta com um time amplo de dezenas de curadores, entre eles, Ronaldo Brito, Ana Maria de Moraes Belluzzo, Julio Bandeira, Guilherme Bueno, Sonia Salcedo e Valéria Piccoli. Já a programação de literatura é assinada por Flora Süssekind; a de música, por Benjamim Taubkin; a de artes cênicas, por João Carlos Couto; e a de cinema, pela Cinemateca Brasileira.

Do projeto anterior de Herkenhoff foram mantidos os trabalhos que artistas cariocas já haviam começado a preparar para o festival. As obras estarão, como conta Aquino, na mostra A Rua, única que tem curadoria apenas do belga Dieter Roelstraete. A Bélgica ainda preparou uma exposição sobre carnaval e será responsável pela edição dos catálogos do evento.

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