Eurochannel promove maratona de Fellini

A maratona proposta pelo Eurochannel compõe-se de duas novidades e cinco conhecidos longas-metragens do diretor. As novidades são o documentário de Paquito Del Bosco, Entrevista com Fellini ? Um Auto-Retrato Revelador e A Longa Viagem, animação baseada em desenhos de Fellini. Os filmes: Entrevista(1989), Ensaio de Orquestra (1979), Mulheres e Luzes (1950), Julieta dos Espíritos (1965) e Abismo de um Sonho (1951). O documentário é nada menos que encantador e também bastante revelador, como diz o título, embora não cubra integralmente a carreira do cineasta. Reúne entrevistas concedidas desde o primeiro longa-solo, Abismo de um Sonho, até Amarcord, de 1973. Ficam de fora Casanova, Ensaio de Orquestra, Cidade das Mulheres, E la Nave Va, Ginger e Fred, Entrevista e A Voz da Lua. Ou seja, toda a última ? e complexa ? fase da carreira do artista. Mesmo assim, o retrato traçado revela muito. É comovedor ver o personagem Fellini ir envelhecendo na tela. Do jovem de 1951, ainda sem traquejo no contato com a imprensa, até o veterano premiado com o Oscar por Amarcord, queixando-se de que o repórter procura induzir suas respostas, tentando extrair dele alguma afirmação de tipo ?edificante?, sábia ou sentenciosa, tudo o que Fellini evitou ser ao longo da vida. Pelo contrário. O que transparece nesse documentário é um tom de absoluta informalidade. A todo momento Fellini coloca-se (mas isso faz parte também da construção de um personagem) como um ser normal, igual a todo mundo, que faz filmes como poderia estar, digamos, fabricando móveis, cultivando um jardim, construindo um barco num estaleiro artesanal. É um sábio, que detesta parecer sábio. De fato, o que acontece? Nas entrevistas, vê-se que Fellini progride sistematicamente em direção a uma ignorância socrática diante da vida. Quanto mais se aprofunda menos se sabe. Mas trata-se de um ?não-saber? qualificado, antítese da ignorância em estado bruto. Essa recusa das verdades seguras seria a única sabedoria que pode se expressar sem impostura, sendo a certeza absoluta apenas uma forma superior do cabotinismo.E tudo o que Fellini sempre procurou evitar foi qualquer forma de cabotinismo. Daí seu distanciamento irônico em relação aos rituais de premiação, ao circo mediático dos festivais, às próprias entrevistas concedidas à imprensa. Ao que tudo indica, Fellini tinha imensa dificuldade em compreender que havia se transformado em celebridade. Aquele tipo que pára os restaurantes quando entra, tem de dar autógrafos e posar para fotos ao lado de desconhecidos. No fundo, sentia que nada daquilo lhe era devido, e que a qualquer momento, como dizia, o truque seria descoberto e ele se tornaria alvo do riso universal. Essa instabilidade do homem diante de si e diante do mundo está no centro do projeto felliniano ? embora, com toda a certeza, ele devesse achar o termo ?projeto? para lá de pomposo e um tanto ridículo. Esse projeto, no entanto, aparece claramente em sua filmografia, mesmo nessa amostragem incompleta e imperfeita apresentada pelo Eurochannel. Mulheres e Luzes, esse primeiro trabalho, em parceria com Alberto Lattuada, mostra um dos aspectos do seu universo pessoal, os bastidores de uma trupe mambembe que se desloca pela Itália fazendo apresentações. Esse universo meio circense, tão caro ao cineasta, está lá, ainda que de forma lateral. Falta o encontro do tom, do estilo certo, que viria com o tempo. Em Abismo de um Sonho, o primeiro longa assinado apenas por Fellini, surge a história exemplar da recém-casada que deixa o marido por uma aventura com um galã de fotonovelas. Nesse jogo da aparência que brinca de realidade está em germe todo o Fellini que virá em seguida, incluindo uma crítica nada velada à indústria cultural que se afirmava naquele momento. Julieta dos Espíritos é um salto brutal na cronologia do artista e no tempo da obra. Entre Abismo de um Sonho e Julieta, 15 anos se passaram. E, nesses 15 anos, havia acontecido nada menos que A Estrada da Vida, Noites de Cabíria, A Doce Vida e Oito e Meio, entre outros. É como comparar épocas históricas diferentes, camadas geológicas distintas, membros de uma mesma família separados pela distância de gerações. Tudo é Fellini, mas já em em níveis que devem ser distinguidos. Essa primeira experiência com a cor encontra o cineasta numa fase de pesquisa interior intensa, com direito a leituras de Jung e experiências com o LSD. É, também, um filme destinado a sua mulher, Giulietta Masina, e um mergulho, sem rede de segurança, no misterioso universo feminino. Ensaio de Orquestra parece o filme mais diretamente político de Fellini. Tudo nele é metafórico, mas cada metáfora remete imediatamente ao real. A orquestra é composta por músicos individualistas, cada qual achando que seu instrumento é melhor do que o do vizinho.Sindicatos fazem exigências absurdas, gerações distintas guerreiam entre si e a liberdade individual está sempre a um passo da anarquia. Para que saia música é preciso que haja um maestro. Mas este pode se transformar num déspota, e às vezes nada esclarecido. Não fica muito claro qual o limite entre a autoridade legítima e aquela que oprime as individualidades. Uma resposta possível: nem cá e nem lá ? o que poderia ser um logotipo prático para a obra de Fellini, crítico da direita, da esquerda e do bom senso do centro. Detalhe histórico importante: o filme, uma clara alegoria da sociedade italiana, sai na esteira da perplexidade do caso Aldo Moro, o político seqüestrado e depois assassinado pelas Brigadas Vermelhas. Entrevista simula um depoimento de Fellini à TV japonesa. Com esse recurso, vá lá, com essa desculpa, ele reconstrói sua experiência em Cinecittà, recupera memórias, mistura fantasia e realidade, ao mesmo tempo em que faz um comentário ácido sobre o futuro do cinema quando o século começa a caminhar para o seu final. Um filme belo, simples, clarividente, complexo e acessível a todos, como só ele sabia fazer. Fellini se foi, quebrou-se o molde.Programação Especial Fellini - Fellini: Um Auto-Retrato - Documentário. Sábado, às 19 horas. Curta-Metragem, às 20h15. Entrevista, às 20h40. Ensaio de Orquestra, às 22h30. Mulheres e Luzes, às 23h30. Julieta dos Espíritos, às 3h10. Abismo de um Sonho, às 5h30. No canal Eurochannel

Agencia Estado,

19 de janeiro de 2001 | 16h29

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