Marco Messina/Efe
Marco Messina/Efe

Euforia e frustração no Chile

Polícia cercou ginásio onde havia superlotação para ver Devendra, Cat Power e The Drums

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / SANTIAGO

Nenhum amadorismo será perdoado. No final, no domingo, o Lollapalooza Chile, o primeiro fora dos Estados Unidos, acabou em caos e decepção para muitos das cerca de 100 mil pessoas que foram ao gigante Parque O"Higgins, em Santiago no final de semana.

O problema maior aconteceu onde deveria haver menos problema: nas atrações indie. Por causa de falta de circulação, ventilação, organização e bom senso, cerca de 2,5 mil pessoas tiveram de ser expulsas do Tech Stage, enorme cúpula de concreto onde se realizavam os shows mais alternativos do festival. A cúpula, uma arena (um dos cinco palcos do festival), teve de ser interditada ao público pela polícia e terminou cercada por carabineros a cavalo.

Milhares não conseguiram ver os concertos de Cat Power, Cold War Kids e The Drums. Viajaram para nada. No final do show, a polícia liberou acesso só para metade da capacidade do espaço - o que levou Cat Power a tocar com um terço da plateia presente, enquanto lá fora nos portões milhares berravam para entrar.

O festival, entretanto, teve seus grandes momentos. Flaming Lips foi um deles. O outro foi o Jane"s Addiction, que entrou com bailarinas dançando suspensas no ar pela pele das costas. Pela metade do show, a banda apresentou seu novo single, End of the Lies, primeira canção de seu próximo disco. É uma música de batida cardíaca, guitarra heavy e com um certo ar setentista.

A escalação mostrou um conjunto de bandas com um certo senso cênico, teatralizado, um rock ao estilo Broadway. O Jane"s Addiction é puro desfile de moda com ênfase na mitologia do rock. O Flaming Lips, decano do rock alternativo americano, é uma festa de balões, papel picado, animadores fantasiados no palco (recrutados em meio ao público), projeções visuais e sua estética - uma construção musical quase matemática, com ênfases visuais - sempre convence. O grupo não parece mais preocupado em fazer discos novos, mas em repetir sua performance circense infinitamente, sempre afinando o repertório.

No palco LG Stage, um gigantesco ginásio, à frente de 15 mil pessoas, o Fischerspooner "causou" com seu show de fumaça e com Casey Spooner simulando um barraco com a audiência, interrompendo uma coreografia no meio para passar um sabão no público. Puro fingimento: em alguns segundos lá estava ele de novo dançando e berrando com suas Spoonettes.

Fenômeno entre o público feminino, o cantor e ator hollywoodiano Jared Leto, da banda Thirty Seconds to Mars, fez sua parte para animar a tarde escaldante. "Quantas pessoas aqui falam inglês?", perguntou, para depois debochar: "Quantas pessoas aqui acham que falam inglês? Sei que essa é uma pergunta esquisita, meus caros irmãos e irmãs chilenos". Talvez achem que falem inglês tanto quanto ele acha que toca guitarra.

Kanye West, o ego mais inflado do show biz na atualidade, encerrou o festival. Quando cantou, havia 35 mil pessoas esperando ainda para vê-lo e à sua ópera do hip-hop, high tech e grandiloquente. O show é baseado no seu novo e elogiado álbum, My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010). West é o rapper que tem levado mais adiante essa ambição de espetáculo do gênero, utilizando-se de todas as armas disponíveis (equipamentos visuais, sonoros, luzes, vocoders, pro-tools, o diabo).

Os grupos chilenos aproveitaram bem as brechas abertas nos palcos principais para mostrar seu trabalho para públicos de mais de 20 mil pessoas, o que é raro para a cena local. A banda Chico Trujillo, a nova cumbia chilena, ao contrário do que dizem, não faz uso do rock para renovar um gênero tradicional - sua música não projeta nada de futuro (como fez Chico Science com o maracatu, por exemplo). O resultado é apenas um carnaval extemporâneo, que funciona bem para os chilenos, mas seria aqui o equivalente a um Asa de Águia (tem sua função, claro). Mais efetivo foi o som do grupo The Ganjas, que injeta psicodelia no rock chileno e produz uma simbiose de Primal Scream com Radiohead. Interessantíssimo.

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