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Euclides da Cunha: um escritor nascido nas páginas do jornal

Enviado a Canudos pelo 'Estado', autor de 'Os Sertões' fez da experiência a matéria-prima de sua obra maior

24 de agosto de 2009 | 17h19

Caderno especial do Estado resume o colóquio Euclides da Cunha 360º - a Obra e o Legado de Um Intérprete do Brasil, promovido, entre outras ações, para marcar o centenário de morte do autor de Os Sertões. Euclides tinha em alta conta o seu vínculo com o jornal. Em uma de suas cartas, escreveu: "Nasci espiritualmente na Província de São Paulo (nome do Estado, fundado em 1875, durante a monarquia) e nunca me desliguei do seu destino." Jovem, Euclides colaborou com o jornal sob o pseudônimo de Proudhon. Mais tarde, preocupado com os rebeldes de Canudos, escreveu dois artigos intitulados de "A Nossa Vendeia", em 1897. No mesmo ano, Julio Mesquita convidou-o para cobrir a guerra como correspondente. Os despachos que, nessa condição, enviou para o jornal estão na origem de sua obra-prima, lançada em 1902.

 

 

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Desde então, nunca se parou de falar e escrever sobre Os Sertões. Mas claro que datas redondas mereceram menções especiais - inclusive também, naturalmente, no Estado. Assim, em 1952, no cinquentenário de publicação de Os Sertões, o jornal estampou em suas páginas um extenso artigo de seu então diretor, o jornalista e político Plínio Barreto, que inicia com as seguintes palavras: "Meio século faz que a gente letrada do Brasil foi surpreendida com o jorro de um vulcão nas principais livrarias. Esse vulcão irrompeu na forma de livro e esse livro, Os Sertões, até hoje ainda espanta as novas gerações pelo vigor da sua linguagem, pelo deslumbramento dos cenários que descreve e pela singularidade dos homens e dos quadros que apresenta."

 

Em 22 de janeiro de 1966, por ocasião do centenário de nascimento do autor, o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo consagrou sua edição a Euclides. O caderno publicou, por exemplo, um alentado artigo de Dante Moreira Leite, intitulado "A Psicologia Social de Os Sertões", discutindo, entre outras questões, o processo de autoconhecimento de Euclides - que estaria na base da escritura de sua obra máxima. Conhecimento de si e, acima de tudo, de um Brasil que ele ignorava ao partir para o Nordeste. A 'conversão' de Euclides, ao se deparar com uma situação que desconhecia, só poderia chamar a atenção do extraordinário psicólogo social que foi Dante Moreira Leite. A edição trazia ainda a transcrição de seis cartas de Euclides. Havia também um curioso artigo de Hugo Stenssoro relacionando o escritor de Os Sertões a Sarmiento (autor de Facundo), por meio de um paralelo entre o Conselheiro e o caudilho Facundo Quiroga, biografado pelo argentino Sarmiento.

 

Nos 70 anos de Os Sertões, o Suplemento Literário voltou a contemplar em suas páginas uma homenagem à obra, desta vez com um longo artigo de Walnice Nogueira Galvão, publicado em cinco semanas sucessivas, a partir de 21 de maio de 1972, que aproximava o livro de Euclides da Cunha de Os Jagunços, de Afonso Arinos. Sem compará-los quanto à qualidade e conquistas literárias, Walnice sublinhava pontos comuns às duas obras. A começar pelo fato de ambas terem nascido de solicitações de órgãos de imprensa. A de Euclides, para o Estado, na forma de reportagens; a de Afonso Arinos, um romance, publicado em série n'O Comércio de São Paulo.

 

Em 23 de maio de 1993 circulou um Caderno Cultura Especial, que não estava ligado a nenhuma efeméride, mas assinalava o fato de Roberto Ventura ter dado início à sua esperada biografia de Euclides da Cunha, que, todos julgavam, seria a definitiva. Em entrevista, Ventura dizia que encarava Euclides basicamente como um idealista da ciência e do progresso. "Ele não tem o ceticismo irônico de um Machado de Assis ou a visão cáustica de um Lima Barreto; foi um adepto do progresso finissecular", comentou. Assim, Euclides teria aderido à República por considerá-la uma etapa inevitável para superação do atraso representado pela Monarquia. Infelizmente, Roberto Ventura não pôde concluir seu trabalho - morreu num acidente automobilístico em agosto de 2002. No entanto, o material que deixou foi publicado no ano seguinte sob o título de Euclides da Cunha - Esboço Biográfico (Companhia das Letras).

 

Naquela mesma edição, Gilles Lapouge comentava a edição francesa de Os Sertões, batizado na França como Hautes Terres. A tradução fora feita por Antoine Seel e pelo brasileiro Jorge Coli. O texto de Lapouge, reproduzido pelo Estado, saiu originalmente como resenha no cotidiano francês Le Monde. Escreveu Lapouge, em seu estilo muito particular: ''O livro é belo como o olhar cego de um vidente.''

 

Em 21 de setembro de 1997, o Estado assinalou que exatamente um século antes publicava despacho do seu correspondente de guerra, que chegara à região de Canudos. O artigo vinha da localidade de Tanquinho e começava desta forma: "São dez horas da noite. Traço rapidamente estas notas sob a ramagem opulenta de um joazeiro, enquanto, em torno, todo o acampamento dorme." O texto, histórico, foi o primeiro dos 25 escritos para o jornal e que serviram de base para compor Os Sertões. Os quatro últimos saíram outra vez no jornal exatamente quando completavam um século: nos dias 21, 22, 26 e 27 de setembro de 1997.

 

O Caderno 2 de 5 de outubro de 1997 marcou os 100 anos da derrota de Canudos, quando caíram os quatro últimos defensores do arraial, cercados por milhares de soldados. Em seu texto, Carlos Soulié do Amaral afirmava que dois homens deram impulso à carreira do grande narrador dessa tragédia: Julio Mesquita "fazendo-o repórter e incentivando-o a escrever Os Sertões; e o Barão do Rio Branco, apoiando sua candidatura à Academia Brasileira de Letras e encarregando-o de uma expedição à cabeceira do Rio Purus, no Acre". Em artigo na mesma edição, o historiador José Carlos Sebe Bom Meihy falava da insuficiência de estudos sobre Canudos, em especial sobre a religiosidade do Conselheiro: "Sem entendimento da espiritualidade assumida pelos conselheiristas estaremos repetindo a tradição presentificadora e externa àquela comunidade."

 

Em 1º/12/2002, o caderno Cultura publicou uma edição comemorativa dos 100 anos de lançamento de Os Sertões. Vários articulistas escreveram sobre a obra e outros foram entrevistados, como foi o caso de Walnice Nogueira Galvão, já então consagrada como a maior especialista em Euclides da Cunha. Para aquele suplemento porém o jornal não convocou apenas pesquisadores e exegetas euclidianos: autores de ficção foram estimulados a escrever a respeito da influência do livro sobre suas próprias obras. João Ubaldo Ribeiro, Milton Hatoum, Antônio Torres, Deonísio da Silva, Luiz Antonio de Assis Brasil e Rachel de Queiroz responderam a cinco perguntas propostas pelo jornal: quando haviam entrado em contato com o livro, em que medida sentiam-se influenciados por ele, se achavam que Os Sertões ajuda ainda a pensar o País, a quem recomendariam a leitura da obra e se tinham algum trecho preferido dela.

 

Algumas opiniões chamavam a atenção: o trecho preferido de João Ubaldo é a abertura, que muitos consideram árida, "por causa da imponente descrição da terra". Antônio Torres comentou que, ao contrário de Ubaldo, quando leu pela primeira vez o livro achou chata a primeira parte do livro, A Terra. Pulou para a segunda, O Homem: "Aí, foi um deslumbramento." Rachel de Queiroz, então cronista do Estado e autora de O Quinze, livro emblemático sobre a seca, preferiu dar um depoimento em lugar de responder às perguntas propostas pelo Cultura. Nele, enfatizava que "Os Sertões foi o primeiro livro que trouxe à consciência do País uma imagem do interior do Nordeste". Não bastassem todas as suas contribuições socioculturais, como o colóquio Euclides da Cunha 360º ratificou, a obra euclidiana também abriu caminhos para a literatura regionalista, que explodiria nos anos 1930.

 

 

CRONOLOGIA

1866

Nasce em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Moreira da Cunha. Perde a mãe aos 3 anos de idade

 

1877-1878

Estuda no Colégio Bahia, em Salvador

 

1879

Volta para o Rio

 

1885

Cursa a Escola Politécnica do Rio de Janeiro

 

1886

Assenta praça na Escola Militar, na Praia Vermelha

 

1888

Republicano, atira o sabre ao chão durante a visita do ministro da Guerra à Escola Militar. É preso e transferido para a Fortaleza de Santa Cruz, onde aguarda Conselho de Guerra. É perdoado por d. Pedro II. Em 22 de dezembro, dá início à sua colaboração no jornal A Província de São Paulo, escrevendo o artigo "A Pátria e a Dinastia"

 

1889

Depois de proclamada a República, é reintegrado à Escola Militar

 

1890

Casa-se com Ana Emilia Ribeiro

 

1892

Conclui o curso na Escola Superior de Guerra

 

1896

Desencanta-se com a República e abandona a carreira militar. É efetivado na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo como engenheiro

 

1897

Preocupado com a revolta de Canudos, escreve dois artigos para O Estado de S. Paulo intitulados "A Nossa Vendeia". Julio Mesquita convida-o para cobrir a Guerra de Canudos como correspondente do jornal. Segue para a Bahia no dia 3 de agosto, a bordo do vapor Espírito Santo. Assiste à carnificina das batalhas. Em 26 de outubro, publica no Estado o último dos seus despachos da série "Diário de Uma Expedição"

 

1898

Muda-se para São José do Rio Pardo (SP), onde supervisiona a reconstrução de uma ponte e redige, nos três anos seguintes, sua obra Os Sertões

 

1902

Publica o livro pela Editora Laemmert, do Rio, com tiragem de 1200 exemplares. Os Sertões chega às livrarias em 2 de dezembro; no dia seguinte, ganha resenha favorável no jornal carioca Correio da Manhã, assinada pelo crítico José Veríssimo

 

1903

Eleito para a Academia Brasileira de Letras

 

1904

É nomeado, pelo barão do Rio Branco, chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Nessa condição, viaja para a Amazônia em dezembro e lá permanece todo o ano seguinte, regressando ao Rio apenas em janeiro de 1906

 

1907

Publica Contrastes e Confrontos

 

1909

Morre, no dia 15 de agosto, ao trocar tiros com Dilermando de Assis, amante de sua mulher

 

ESTANTE

- Obras Completas (Nova Aguilar), organização de Paulo Roberto Pereira. Edição revista e ampliada. Lançamento previsto para setembro.

 

- Poesia Reunida (Editora Unesp), organização de Francisco Foot Hardman e Leopoldo Bernucci. Previsto para outubro.

 

- Os Sertões (EDIOURO). Ilustrada, nas livrarias.

 

- Os Sertões - Edição Crítica  (Ática), preparada por Walnice Galvão. Lançamento previsto para Setembro.

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