''Eu sou um espírita cristão, ecumênico''

Uli Steiger é um prestigiado diretor de fotografia alemão. Foi quem fotografou Nosso Lar. O trabalho foi complicado porque a imagem já foi captada prevendo a inserção dos efeitos especiais. Foram centenas de planos com algum tipo de efeito. Steiger se sentia mais confortável fotografando o Umbral, que poderia ser definido como o inferno (se a doutrina espírita o reconhecesse). Steiger estranhava muito o Nosso Lar. As pessoas falam de um jeito empolado na cidade espiritual, olham para a câmera com beatitude. "Prefiro o inferno", ele brincava. "Não se reprima", dizia a produtora Iafa Britz. "Nosso Lar é sobre escolhas. Se essa for a sua..."

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2010 | 00h00

Iafa Britz é judia. Conta que a filmagem de Nosso Lar foi muito engraçada. "Nosso set era o mais plural possível. Havia gente de todas as crenças e até ateus, ou agnósticos. Católicos, budistas, espíritas. Entre uma tomada e outra, a equipe toda estava sempre envolvida em discussões filosóficas e religiosas. A maioria delas era de alto nível, mas às vezes alguém se exaltava. Nunca chegamos às vias de fato. Mesmo os que não acreditavam na doutrina acreditavam no filme."

Ela admite que o realismo do Umbral possa tornar essa parte mais palatável - ou reconhecível - pelo público. O Nosso Lar, propriamente dito, produz estranhamento. Iafa lembra que o livro foi psicografado nos anos 1930, quando as pessoas se expressavam de uma maneira mais empolada, ou formal. Aventa a possibilidade de que os espíritos no Nosso Lar estejam num estágio superior, mas na verdade adverte. "Fizemos o nosso Umbral muito mais leve e divertido do que no livro. Se fôssemos reproduzi-lo fielmente, o filme seria de terror."

Justamente essa parte do Nosso Lar poderá valer ao filme, apesar de bem produzido, a definição de brega. Assis respeita a opinião de quem quer que seja, mas não se abala. Há pelo menos cinco anos ele trabalha no filme e, portanto, não se trata de um estalo nem de um insight, muito menos de uma tentativa oportunista de aproveitar o filão do sucesso de Chico Xavier, o longa de Daniel Filho. Nem Daniel pensava no centenário de Chico - este ano. Wagner de Assis havia lido o livro nos anos 1980. Desde então, o releu e estudou, sempre pensando numa possível adaptação.

Após o lançamento de A Cartomante, ele foi sondado para dirigir um filme sobre o Marechal Rondon e outro sobre Anita Garibaldi. Quase embarcou nessas encomenda, mas algo o paralisava. "Um filme demora tanto para ser feito, melhor quando o comprometimento é pessoal", avalia. Voltou a Nosso Lar. Com o ator Renato Prieto, que fizera uma versão para teatro, consultou a Federação Espírita e foi liberado para fazer a adaptação.

Escola católica. Assis define-se espírita cristão, ecumênico. "Fiz escola católica, mas me desenvolvi intelectualmente na doutrina espírita. Procurei o budismo, o hinduísmo, a cabala, li sobre a antropologia das religiões. O que gosto de ver é como tudo se conecta quando se tenta descobrir as verdades essenciais, desde que a gente tenha a humildade de não se achar dono da verdade absoluta. Nosso Lar, o filme, acima de tudo, não é dogmático." Dependendo do sucesso, ele gostaria de seguir na vertente adaptando outro livro psicografado por Chico Xavier, Os Mensageiros.

QUEM É

WAGNER DE ASSIS

CINEASTA

Em 2004, dirigiu A Cartomante, inspirada no conto homônimo de Machado de Assis, com Deborah Secco e Luigi Baricelli, mas Nosso Lar é seu projeto mais ambicioso. Ele pretende seguir a vertente espírita, dirigindo para o cinema outro livro psicografado por Chico Xavier, Os Mensageiros.

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