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Eu sou o Pagliacci

O cronista deprimido olha pela janela e vê o mundo acinzentado e moroso

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2016 | 02h00

A menos que também se leve em conta a dolorida realidade do palhaço triste, há poucas coisas mais pungentes na vida do que um cronista deprimido. Certo: há pianistas com artrose e equilibristas com labirintite, e existem astrônomos azarados, bispos que perdem a fé e cirurgiões com soluço – temos até especialistas em lógica formal depois de misturar catuaba com cerveja –, mas vamos aqui nos concentrar nessa lamentável ocorrência que infelizmente não recebe a devida atenção das campanhas de saúde pública.

O cronista deprimido não se interessa por coisa alguma. Ele pensa num tema para a coluna e imediatamente o descarta por puro desânimo. Meditando sobre outros assuntos possíveis, ele não encontra nenhum que lhe apeteça, nem quando se depara com a história de vinte e duas capivaras que invadiram a piscina de um clube chique carioca. O cronista deprimido não acha graça em nada, não tem vontade de perseguir nenhuma pauta; acha que o ideal mesmo seria fechar a coluna para balanço e recomendar que os leitores procurem gavetas para arrumar. O cronista deprimido olha pela janela e vê o mundo acinzentado e moroso, como se fosse um velhinho puxando vagarosamente uma carroça de recicláveis com um cachorro magro encarapitado na boleia.

Ele tenta ler sobre expedições polares e não consegue. Procura se interessar por teorias da conspiração e segredos de guerra, sem resultado. Dá uma mordida numa banana e desiste de continuar porque a vida não faz sentido, calculando que o esforço da mastigação não chega exatamente a compensar. O cronista deprimido abandona a banana mordida dentro de uma tigela na geladeira, e não se dá ao trabalho nem de responder quando lhe perguntam por que tem uma banana meio comida dentro de uma tigela. (É tudo muito cansativo.)

Por definição, um cronista é aquele que enxerga interesse em temas diferentes, que exalta a beleza dos clipes de papel e que a cada semana tem alguma coisa inesperada para mostrar. Que num dia escreve sobre doutrinas éticas, no outro sobre lojinhas de 1,99, em seguida fala de racismo, sambas-enredo, poluição sonora, gatos e sapateado. Um cronista deprimido não tem assunto. Não consegue sair da cama e levar seu texto para lugar nenhum, por mais que esteja fazendo sol lá fora; não sente o gosto dos sorvetes nem tem empatia pelas coisas. 

Ele assiste a vídeos de labradores felizes tomando um banho de mar e fica ainda mais chateado. 

*

O quadrinista britânico Alan Moore, autor de V de Vingança, imortalizou nas páginas de Watchmen uma das minhas piadas preferidas, que não é exatamente uma piada nem tem muita graça. É assim:

“Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto.

O médico diz: ‘O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show. Isso deve animar você.’

O homem se desfaz em lágrimas. E diz: ‘Mas, doutor… eu sou o Pagliacci.’”

*

O cronista deprimido deve trazer, a cada semana, pequenos instantâneos do mundo, lembretes curtos de que vale a pena continuar calçando os sapatos e indo para a rua, mas ele mesmo não está muito convencido disso. Não há nada que seja empolgante o suficiente para instigá-lo. No fim das contas, é até possível ser engraçado usando expedientes racionais, sem necessariamente enxergar o humor no que se está fazendo, mas o interesse genuíno é mais difícil de forjar.

Daí a triste sina do cronista deprimido, que bem poderia contar com uma boa dose de tristeza se ao menos lhe viesse o ânimo suficiente para iniciar um parágrafo.

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