Wilson Junior/AE
Wilson Junior/AE

''Eu sou movido a adrenalina''

No Rio, diretor diz que numa franquia como Transformers, que estreia no dia 1º, não se pode economizar na ação

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2011 | 00h00

Entrevista

Michael Bay

Há 16 anos, durante o Festival de Cannes, o repórter encontrou-se no escritório da empresa Columbia com um diretor estreante, Michael Bay. Ele não participava da seleção, mas estava em Cannes meio desgarrado. Seu longa Bad Boys havia estourado nos EUA. O repórter concordou em falar com o diretor e publicou, no Estado, sua primeira entrevista na imprensa brasileira. O tempo passou, Michael Bay virou um dos grandes do cinemão, um sinônimo de cinema barulhento, espetacular. Transformers - O Lado Oculto da Lua o trouxe agora ao Brasil para o lançamento latino-americano do filme, que estreia dia 1.º. Foi no domingo a primeira exibição de Transformers 3. Na segunda à noite, Bay e seu atores - Josh Duhamel e Rosie Huntington - embarcaram para Moscou, onde ocorre amanhã à noite a première mundial. O diretor estava feliz e relaxado de estar aqui. "O Brasil é um mercado em alta, um dos mais importantes para o cinema do mundo." A entrevista realizou-se no terraço do Hotel Copacabana Palace, onde Bay passou o tempo todo tomando água de coco.

Os últimos 15 anos foram muito intensos para você. Filmes grandes, grandes sucessos. Você planejou isso desde aqueles dias em Cannes ou as coisas foram acontecendo?

É difícil fazer o planejamento de uma carreira. Muitos elementos interferem. Gosto do que faço, mas sinto o tempo todo que há um projeto que me escapa. Gostaria de fazer um filme pequeno, de personagens, mas cada vez mais embarco nesses grandes desafios e eles me absorvem. O maior desafio de todos seria retroceder e fazer um filme a dois.

Mas você quer mesmo fazer esse filme? Tudo em sua carreira aponta para outra coisa, para Transformers.

Cada um desses filmes grandes propõe o seu desafio e eu sou movido a adrenalina. Vou conseguir? Como vou conseguir? No caso de Transformers 3, era o 3-D. Muita gente me cobra. Há dois ou três anos, eu ainda estava falando contra o 3-D. Mas, depois, Steven (Spielberg, um dos produtores da franquia) ficou no meu ouvido, tentando me convencer. Encontrei-me com James Cameron e o entusiasmo dele pelas novas câmeras era tão forte que comecei a ficar tentado. Essas câmeras encarecem a produção, são frágeis. Comecei a pesquisar e a necessidade de mudar, de me ajustar foi mais forte.

Você já disse que não era fã dos Transformers. Isso facilita minha pergunta. Acho que, na origem de Transformers, a franquia, está Stanley Kubrick, o computador Hal 9000 de 2001 - Uma Odisseia no Espaço. O que você acha?

Quando o contactei para fazermos Transformers 1, Josh (Duhamel) foi cético. Me perguntou se eu achava que era uma boa ideia. Não me interessavam os bonecos nem a série animada. Mas o heroísmo e as máquinas eram excitantes. As máquinas que tudo veem, tudo sabem. O olho de Hal 9000. O conflito entre o homem e a máquina é um dos grandes temas da ficção moderna. As máquinas proliferam, mas até que ponto as comandamos ou elas nos comandam? Os jovens estão cada vez mais viciados na cultura das redes. Isso é bom ou ruim? As ferramentas da net viciam como drogas. Temos uma quantidade extraordinária de informações, mas a alienação nunca foi tão grande. E eu faço filmes.

Os críticos o demolem no Brasil pelo que consideram o seu militarismo. Eu acho que seu cinema expressa um dilema contemporâneo, o embate militarismo/humanismo. Que tal?

Não tenho interesse pelo militarismo, em si. Ele me interessa como expressão de um heroísmo. Estamos aqui de frente para essa praia (Copacabana). Se viesse uma ameaça do mar, ou do espaço, você seria contra a entrada em cena do Exército? Pessoalmente, sou um cara pacífico. Quero um mundo mais estável, sustentável, para mim, meus amigos, minha família. Mas me interesso muito por guerreiros, por militares, por heróis. São pessoas capazes de matar. Compõem um enigma para mim. Como diretor, tento decifrá-los.

Kubrick também era interessado por esse enigma, mas vamos falar dos Transformers. Você humaniza ou demoniza máquinas. Não basta um olho azul ou vermelho. Você precisa recorrer à montagem das cenas para essa humanização, ou não?

Por certo que sim. O cinema é uma arte que depende muito da montagem, mas eu não subestimo a importância do roteiro. Preciso de escritores que me forneçam a base das cenas, os diálogos. Mas, no limite, é a dinâmica da cena que vai atuar no público.

Tenho a impressão de que, mais do que nos filmes precedentes, você dá uma face humana às máquinas. Sentinel, que trai os Autobots, por exemplo, parece um velho. É delírio meu?

Sentinel nos deu muito trabalho. Ele foi criado com diferentes expressões que tiramos de filmes com Sean Connery. Sean nem sabe disso, mas era fundamental dar um rosto humano à máquina para o bom entendimento da nossa história.

As cenas de ação estão cada vez mais espetaculares. As transformações dos carros e caminhões em robôs, os saltos no ar. A cena mais eletrizante é a chegada ao Nest (ninho). Os programas de computador são os mesmos do primeiro filme?

Não. É preciso criar novos programas para cada aventura, para cada necessidade. As câmeras em 3-D colocam problemas adicionais. Numa franquia como Transformers, não se pode economizar na ação. O resultado ficaria diminuído sem essa overdose de ação.

Ao mesmo tempo, num filme sobre máquinas, o que a gente retém, eu retive, é o rosto humano. As cenas de John Turturro e Frances McDormand são um regalo. Como foi trabalhar com eles?

Sou fã de Frances desde Fargo e John (Turturro) é um ator incrível, como o outro John (Malkovich). Nossa história não faria sentido se não tivéssemos os humanos. A saga transpõe para as máquinas o conflito entre liberdade e opressão, mas são os humanos que expressam nossa força e nossa vulnerabilidade. Tanto quanto a técnica, sou muito orgulhoso de meus atores. Se Shia (Labeouf) não tivesse empatia com o público, ninguém ia se importar com essa história toda.

Para voltar ao começo, sem forçar a barra, toda a série se baseia em relacionamentos. Temos Shia e os transformers, Shia e as namoradas, seus pais, Frances e Turturro...

Temos até um personagem gay, o ex-agente de John (Turturro). Mas é bom não chamar muito a atenção para que as pessoas não comecem a encucar.

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