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Eu quero ir pra Plutão!

Para o cidadão Gilmar Mendes

Roberto DaMatta, O Estado de . Paulo

23 Setembro 2015 | 02h00

Quando Mario Batalha soltou essa frase no seu tom rabugento beligerante, eu pensei que ele estivesse bêbado. Mas qual, o velho estava em forma e, como ele fala pausadamente, você fica intrigado com a próxima frase, que pode declamar um poema ou anunciar o fim do mundo. Olhamos para ele com os olhos de fora um tanto esbugalhados; enquanto os de Capitu tentavam adivinhar o que viria.

– Plutão! Na ausência de saída desta infindável crise, cujo centro está brasileiramente em quem pode terminá-la, pensemos não em Platão ou Pluto, o cachorro do camundongo Mickey (isso é que é democracia: um rato ter um cachorro, enquanto aqui, os ratos são também cachorros). Falo – continuou sem alegria Mario Batalha – no planeta mais longínquo, o que era tão desconhecido como os valores de um político nacional. Aliás, continuou, as fotos de Dilma, depois da tenebrosa perda do grau do investimento, revelam olhos bonitos e um tanto plutônicos – como que situados na fronteira do nosso miúdo sistema político-planetário...

– Apaixonou-se pela presidente?, perguntou o gozador Beto Molhoterno, especialista nas plutônicas gatunagens da Petrobrás. 

– Não, não, e não!, reverberou Mario Batalha, falando ainda mais pausadamente. 

Pensei no permanente drama do aluno deslumbrado pela professora, no legislador preso pela lei que proclamou, na cozinheira que come a própria comida, na mulher irresistível que não resiste a si mesma e não dá para ninguém, no país que faz guerra em nome da paz e no partido que enriquece em nome do povo. Em suma, do criador arrebatado (e paradoxalmente encarcerado) pela criatura que inventou, a qual, uma vez fabricada, ganha presença e autonomia e faz suas exigências, embaraçando – como no velho mito – o criador. Galateia, relembro, logo que como estátua recebeu dos deuses o dom da existência, exigiu do seu ex-escultor apaixonado, que ele raspasse a barba. Tal como as mulheres exigem um carinho esquecido e o nosso Brasil – essa Galateia em forma de coração – demanda apego e, sobretudo, uma babaquice chamada honestidade. Que dizem ser coisa para “trouxas”! 

Nós, como o mitológico Pigmalião, esculpimos uma democracia que transforma floristas analfabetas (como na peça de Bernard Shaw) em duquesas; e operários em presidentes. Sua incomensurável bonança abrange toda a sociedade, pois é isso que a distingue da aristocracia. Nela, não há segmentações estabelecidas, mas papéis e cargos a serem preenchidos por mérito. Sendo inclusiva, nela os excluídos são um problema, inclusive esse planeta Plutão que hoje faz parte do nosso conhecimento astronômico. O campo da democracia é imenso e nele nasce tanto mentira, quanto verdade. Como o tão malfalado mercado, ela aceita tudo e, por isso, tem que ser medida e vigiada. No seu seio, todos, f.d.p. e planetas são agasalhados.

Mas, como criatura e instituição, ela faz suas demandas. Tem, como Galateia, suas cobranças. Uma delas é o limite do tempo de governo; outra é a honestidade; uma outra – dificílima num país de índole aristocrática – é a eficiência e o senso de limite ou de justiça. 

Governos democráticos-liberais – prosseguiu – são irritantes porque eles têm um laço forte com o mercado autorregulamentado (que estabelece responsabilidade) e com um paralelo ao teste das urnas, o qual se decida por números mas se convalida pela eficácia e pela sinceridade – pelo chamado “bem-estar geral” que, graças a Dilma, acabou no Brasil. 

E o que isso tem a ver com Plutão? Perguntaram a um só tempo o velho Perdigão, ao lado do Miroca e do Sivoca.

Tem tudo a ver. O planeta menos conhecido e bom porque estava longe faz agora parte do nosso mundo. Tornou-se parte da nossa consciência. Com isso, ele desmancha fantasias, se revelando em sua realidade rochosa e infértil. Tal como a distante democracia liberal que era um sonho numa sociedade de barões e milicos autoritários, bem como de gente que virava político para ser servida e não para servi-la e honrá-la, espanta ladrões disfarçados de pais do povo. 

À essa altura, Mario Batalha tomou um largo gole de uísque e olhou nos nossos olhos lavados de velhos. Chuck Snake, o americano que nada entendia de Brasil e pensava que o lulo-petismo fosse igual ao tal “liberalismo ianque”, quis sair da roda, mas eu o acalmei. “Take it easy”, disse. 

– E como iremos para Plutão?, questionou o Miroca com um sorriso sacana.

– Vamos com gosto, tomando do bom e do ruim, mas obedecendo às demandas da nossa criatura, tal como o fazemos com o espírito arrolhado nessa bela garrafa, respondeu veloz um sério Mario Batalha.

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