Denise Andrade
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Eu, o idiota

Imagino, com a devida vênia, que sejamos até semelhantes – embora não me sinta à altura da sua obtusidade premium

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 07h37

Eu, o idiota, fui citado pelo excelentíssimo em recente manifestação pública. Na ocasião, um dia idiota como outro qualquer, o ocupante do posto máximo da nossa ilhota, um punhado de terra idiota perdido no meio de um oceano idiota de papel crepom azul, dirigiu-se a mim de forma veemente.

Não que tenha me ofendido, longe disso. Sou um idiota registrado em nossa comarca idiota. Tenho todos os carimbos requisitados e a papelada idiota está em ordem. Portanto, saindo de vossa condecorada boca, a alcunha não me machuca. 

Eis aqui um idiota. E que ninguém duvide disso. Muito menos o senhor – que tem esse dom tão bonito de reconhecer um idiota a quilômetros de distância (ou até mesmo pelo cheiro).

Imagino, com a devida vênia, que sejamos até semelhantes – embora não me sinta à altura da sua obtusidade premium. Curvo-me, pois, à vossa expertise nesta seara idiota. 

Sou um idiota simples, um simplão. Um idiota popular. Um idiota patriota.

Faz tempo que nem o Censo vem bater à minha porta idiota. Minhas coisinhas idiotas não são mais de interesse público. Outras idiotices de maior relevo devem ocupar vossas preciosas horas.

Como o senhor ressaltou, tenho permanecido, o maior tempo possível, dentro da minha casa idiota. Não faço isso por gosto. Adoraria retomar minha rotina idiota e de exercer minha idiotice ao ar livre (em companhia de outros idiotas). 

Mas, como o senhor deve saber ou ao menos ter lido algo a respeito, existe um vírus violento lá fora. E, além de idiota, sou apegado a minha vida idiota, aos meus pequenos prazeres idiotas e aos idiotas que tanto amo.

Não quero abreviar minha passagem idiota por esse mundo idiota – e principalmente por nossa aprazível e tropical ilhota idiota. Quero acordar para o sol idiota de todas as manhãs idiotas, quero o sabor idiota do café, quero os beijos idiotas, quero o prazer idiota do álcool e do sexo, quero um carnaval idiota e quero, com toda a força, a plenitude idiota de uma existência idiota. 

Ainda tenho muitos sonhos idiotas para realizar. Enquanto meu braço idiota não receber uma vacina, vou permanecer na minha casa idiota, com minha rotina idiota e esperando dias melhores.

Excelentíssimo, sou um idiota que paga impostos idiotas. Tenho meus direitos idiotas resguardados por leis idiotas. Peço, com humildade idiota, que vossa excelência controle esses arroubos e suas arrobas idiotas. O seu negacionismo idiota não vai nos derrotar. Idiotas, uni-vos (de máscara). 

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