Christian Charisius/Reuters
Christian Charisius/Reuters

''Eu não queria ser ator, mas músico''

Jeff Bridges, o xerife herói de 'Bravura Indômita', hoje agradece pela carreira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Filho e irmão de ator - respectivamente, Lloyd e Beau -, Jeff Bridges agradece aos céus por não haver levado ao limite a tendência dos jovens de contestar a autoridade paterna. "Meu pai sempre nos encorajou, a Beau e a mim, que seguíssemos sua carreira. Até para ir contra, nunca pensei seriamente em ser ator. Preferia a música, mas aí Jeff Corey, que me deu lições de arte dramática, começou a insistir que eu levava jeito e seria um desperdício não virar ator. Comecei a atuar, mas foi somente depois de A Última Sessão de Cinema que me conscientizei de que era o que queria fazer."

O clássico de Peter Bogdanovich completa 40 anos em 2011. Jeff Bridges volta-se para estas quatro décadas e conclui que foram enriquecedoras. "Não tenho o que reclamar. Outro dia revisei minha filmografia e me dei conta de como sou afortunado. Tantos bons filmes, tantas personalidades interessantes com quem convivi." Hoje, ele está convencido de que carregava a arte de atuar no sangue. Tentou convencer as filhas a também fazerem carreira no cinema. Nenhuma quis. "Jessie, a mais velha, se interessa por música. Compomos juntos e considero uma vitória ela ter sido minha assistente em Bravura Indômita. Foi o mais longe que consegui levá-la a um set."

Jeff conversa com o repórter do Estado e mais quatro jornalistas numa suíte do Hotel de Roma, na sexta à tarde. Na quinta, Bravura Indômita, a nova versão, dos irmãos Ethan e Joel Coen, inaugurou o 61.º Festival de Berlim. O filme concorre ao Oscar em dez categorias, incluindo filme, diretor (Joel) e ator (Jeff) . Jeff comenta a indicação. "O circo do Oscar é excessivo e não me agrada, mas não se trata só de ego nem de dinheiro. Para um ator, obter o reconhecimento de seus pares é gratificante."

Ele admite que concorrer uma interpretação que já valeu o Oscar para John Wayne (no western de Hathaway, de 1969, que está saindo em DVD, em caixa dedicada ao astro) nunca foi preocupação. "As pessoas são livres para comparar. Sabia que Ethan e Joel iriam fazer algo bem diferente, no estilo deles." Mas, só por curiosidade, ele conhece o filme antigo? Gosta? "Não é mau", ele responde. "Acho que os defeitos que possa ter decorrem muito mais da época em que foi feito." O repórter insiste - Hathaway é um dos grandes de Hollywood, que ainda não obteve o devido reconhecimento. "Respeito sua opinião, mas não tenho condições de aprofundar essa discussão." Quanto aos Coens, "these guys", esses caras, "fazem o melhor cinema norte-americano da atualidade", garante.

É um prazer conversar com Jeff Bridges porque, em primeiro lugar, é possível compreender perfeitamente tudo o que ele diz. No filme, sem legendas, até os norte-americanos têm dificuldade para entender os diálogos de Bravura Indômita. "É uma coisa que já vem do livro de Charles Portis. Ele usa muito o vernáculo e isso, somado à bebedeira do personagem, cria a dificuldade." Como é interpretar um bêbado? "Você quer saber se é difícil? Se há uma coisa que aprendi nestes 40 anos é que você precisa estar sóbrio. No início da minha carreira, cometi o erro de achar que teria de encher a cara para fazer um bêbado. Tomei montes de gim e vodca com laranjada. Fiz a cena, o complicado foi o dia seguinte."

Fala enrolada. Ele acrescenta que, num determinado momento, o próprio estúdio - a Paramount - chegou a pensar na possibilidade de colocar legendas. "Ainda bem que não foram adiante. Ficaria esquisito. E acho que a fala enrolada de Rooster Cogburn (o personagem) faz parte das bizarrices que o público espera encontrar num filme dos Coens." John Wayne? "Ele foi grande, mas não creio que o papel em Bravura Indômita seja daqueles que o transformaram num ícone. O Oscar criou a fama do papel, e não o inverso."

Sobre o western, ele admite amar o gênero. Um de seus primeiros grandes papeis foi em Má Companhia, de Robert Benton. Depois, fez Portal do Paraíso, de Michael Cimino. "Ajudei a cravar o prego no caixão do western", diz. Ele se lembra da gélida recepção ao filme. "Michael (Cimino) virou o grande vilão. Injustamente. Cada vez que revejo o filme gosto mais." Também gosta de Wild Bill Hickox, que fez com Walter Hill, diretor e filme que considera subestimados. O novo Bravura Indômita é um western? "Os Coens não pensam desse jeito. Interessa-lhes a história, o personagem. A época é a do western, mas o filme. Não sei." Um western desmistificador? "Vá dizer isso a eles. Quando me propuseram o filme, disseram que iam ao livro, não a\o filme antigo. Queriam ser divertidos, e só."

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