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Eu não o ouço e você não me vê

Temos de repetir o apelo do anjo aos pastores, paz na terra aos homens de boa vontade

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

07 Maio 2017 | 02h00

Eu estava na Itália quando houve uma campanha contra a anorexia. Oliviero Toscani, preocupado com o crescimento do distúrbio, instalou outdoors com imagens pungentes de uma modelo com aspecto cadavérico. Objetivo: chocar e mostrar a extensão do drama e, pela catarse dolorosa, estimular que mais vítimas buscassem auxílio. As fotos alertaram muito, mas surgiu um efeito colateral complexo. Ao ver pessoas em estado de magreza patológica, outras pessoas, sofrendo do mesmo mal, em vez de rejeitarem e se horrorizarem, viram nas imagens um modelo a ser seguido. O que machucava os olhos de uma pessoa, em outra, pelo contrário, mostrava um ideal de beleza a ser imitado. Tiro pela culatra: um argumento virava reforço de sua antítese. 

O palácio da retórica sempre teve essa sala obscura. São códigos distintos dentro de uma mesma língua/cultura. É um exercício de surdez seletiva. Muitas vezes, creio, nem se trata de má-fé, mas do limite do possível para cada um. 

Ofereço outro exemplo. Tenho imenso respeito pela professora Marilena Chauí. Aprendi quase tudo o que sei sobre Spinoza com ela. 

Em vídeo publicado em 3 de julho de 2016, ela fazia uma afirmação contundente. O juiz Sérgio Moro teria sido treinado nos EUA, pelo FBI. Suponho que a afirmação deveria ser um petardo contra a credibilidade do magistrado. O fato por ela levantado serviria para eliminar o apoio ao juiz de Curitiba.

Voltamos ao diálogo de surdos. Muitas pessoas que conheço afirmavam: bem, se Moro faz o que faz tendo sido treinado pelo FBI, precisamos enviar todos os juízes para o mesmo treinamento. Perceberam, atentos leitores e leitoras, onde está o problema? O argumento que se pretendia crítico soava como elogioso para alguns. O motivo estaria na posição contra ou a favor do juiz. Não se trata de sofisma ou relativismo extremo. Eram dois mundos e duas visões antitéticas que, no fundo, viam um mesmo elemento como prova cabal do oposto.

Não tenho nenhuma condição de dizer, por ignorância absoluta, se houve ou não qualquer treinamento do FBI. Para meu argumento, isso é irrelevante. O centro do que estou falando não está na professora Chauí ou no juiz Moro, mas como cada pessoa entende o mesmo fato de formas distintas.

Ocorreu o mesmo quando a campanha política da ex-presidente Dilma exibiu a foto dela como presa política. Para uns era o louvor a uma ação coerente em busca da liberdade e o enfrentamento da ditadura, arriscando a própria vida. Para outros, era a prova de que Dilma seria radical e inapta à Presidência. São conclusões opostas a partir da mesma foto. 

Estamos perto de uma campanha eleitoral. Tudo indica que será acirrada, polarizada, marcada pelo desequilíbrio e pela carência de lógica. Imagens passionais e fotos fluirão pelas redes como uma pororoca incontrolável. Em si, isso não é ruim. Uma leitura otimista diria que faz parte do processo de amadurecimento político. Porém, temo que estejamos prestes a travar um diálogo de surdos.

Um médico é bom durante a anamnese quando consegue traduzir as angústias do paciente para uma objetividade da sua ciência. Um leigo descreve sintomas e percepções longe do rigor acadêmico; o bom doutor ouve e traduz. Essa é uma habilidade profissional relevante.

O ano de 2018 vem chegando e todos teremos de ser médicos uns dos outros. A Nação vai entrar em anamnese. Dores opostas e pedidos conflitantes entrarão na ordem do dia. Há vários projetos de nação em curso e quase nenhum reconhece a chance de existência legítima para o outro. Isso explica a virulência sulfúrea do debate nas redes. 

Vivendo dentro de igrejas circunscritas por eleições afetivas ou recortes sociais, temos dificuldade de ver outras fés. Quando as procissões plenas de convicções opostas se encontram, o que ocorre é estupor absoluto e fluxo de ódio. Interrogados, os fiéis sempre dirão o mesmo: a culpa é do outro, pois na minha fé se congraçam a ética e a justiça. 

Projetos nacionais nunca são bem construídos por moradores de qualquer polo. Radicalismo derruba democracia e nunca edifica de verdade. Temos de repetir o apelo do anjo aos pastores, paz na terra aos homens de boa vontade. Haverá gente de boa vontade daqui até as eleições? Gostaria que sim, mas isso é puro desejo. Sempre soube que o conforto dado pelo ódio é muito forte, pois tira de mim toda crítica e joga sobre o outro toda a culpa. 

Reflexões densas, povoadas de dados críticos e verificáveis, sem adjetivos, sem partir para o insulto, perguntando com honestidade e pelos limites do próprio saber: eis um caminho bom. Uma conversa séria de quem tem como base comum o bem-estar do País, da sua população e não apenas o de si. Capacidade de pesar argumentos contrários, sem palavrões, sem bílis ou olhos vermelhos: eis um desafio imenso. O novo bárbaro é o que não admite a existência do outro. Vencerá a civilização? Essa é uma boa e inquietante questão. Bom domingo a todos vocês. 

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