''Eu não conseguiria fazer um filme realista''

Alain Resnais fala sobre Ervas Daninhas, em cartaz no Brasil desde dezembro

Gilbert Adair, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

A velhice é sempre desanimadora. Embora Alain Resnais não seja, aos 88 anos, o cineasta mais antigo na ativa, ainda é difícil acreditar que o filme sobre o qual eu vim conversar com ele em Paris - Ervas Daninhas, autêntico romance surrealista, tão distante da geriatria, em estilo, quanto se poderia imaginar - foi realizado por esse cavalheiro elegante, eloquente, sentado na minha frente no Hotel Claridge, perto do Champs Elysées. A última vez que havia encontrado Resnais fora há um par de décadas, e ele permanecia tal como eu me lembrava: a esplêndida cabeleira branca, camisa vermelho vivo, gravata preta com nó apertado e agasalho de grife. Só faltava o visor pendendo sobre o pulôver.

Até sua lendária modéstia continua intacta. Não se lerá nos créditos de nenhuma obra sua "Um filme de Alain Resnais". "Como eu poderia insistir num crédito tão pomposo para Ervas Daninhas? Você viu o filme, é quase tanto de Eric Gautier quanto meu." Gautier é seu diretor de fotografia; são seus esquemas de cores fovistas e efeitos de iluminação inspirados em HQ que tornam tão particular Ervas Daninhas, que participou do festival de Cannes ano passado. Aí, caso único em minha experiência com artistas modestos, ele consegue fazer pouco de sua modéstia. "Se eu tivesse escrito o filme, além de dirigi-lo, poderia chamá-lo de "Um filme de Alain Resnais"." Para alguns fãs, a admiração pela obra de Resnais permaneceu presa a seu trio inicial de obras-primas, Hiroshima Meu Amor, O Ano Passado em Marienbad e Muriel.

Nos anos 60, sua reputação era de "cineasta elitista, difícil, que desprezava roteiristas profissionais e músicos de estúdio experientes, preferindo colaborar com escritores literários (Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet, Jorge Semprun) e compositores clássicos (Hanns Eisler, Hans Werner Henze). Quanto a seus temas, eles eram sempre sérios: redutíveis, para muito espectador preguiçoso, aos duos de vaudeville, tempo e memória (Hiroshima), e aparência e realidade (Marienbad), tirados da naftalina, como Sunshine Boys de Neil Simon, para um último benefício.

Resnais nega que algum dia tenha sido intelectual tão obstinado. "Duvido até que eu algum dia tenha sido intelectual." E, com certeza, nos últimos anos, seus filmes se abrandaram para um grau único na carreira de qualquer grande diretor. Fez um musical, Amores Parisienses (dedicado a Dennis Potter); uma adaptação da opereta dos anos 20, Beijo na Boca, Não!; um par de comédias baseado em peças de Alan Ayckbourn, Smoking/No Smoking e Medos Privados em Lugares Públicos; e agora, com Ervas Daninhas, um filme cujos visuais turbulentos se inspiram nos quadrinhos neobarrocos da série The Spirit de Will Eisner.

Perguntei se essa mudança gradual de tom representa o que os freudianos chamam de "o retorno do reprimido" - se ele sempre teve um anseio secreto de tornar pública sua afeição secreta pela cultura popular. "É preciso lembrar que o cinema dos anos 50 se especializou no entretenimento escapista. E nós, quero dizer, minha geração de cineastas franceses, buscamos fugir desse escapismo. Éramos jovens e ambiciosos, queríamos tratar das grandes questões que o cinema preferia desviar os olhos - no meu caso, o Holocausto, a bomba atômica, a guerra argelina. Agora, na França, 230 filmes são lançados a cada ano e eu diria que 60% deles se propõem a expor algum abuso político ou social. Isso virou quase a norma. Bem, não gosto de normas. Felizmente liberado da pressão para competir, estou livre para brincar com o que Orson Welles chamou de maior conjunto de trem elétrico do mundo."

A premissa de Ervas Daninhas, baseada num livro de Christian Gally, é bem rala. Marguerite, dentista chique quase à beira de um ataque de nervos tem sua bolsa roubada na rua - depoois recuperada, sem o dinheiro, por George (André Dussollier). Após esse contato, eles embarcam num relacionamento que evolui para as mais puras expressões, ao menos desde o apogeu de Luis Buñuel, do amor ingênuo cinematográfico. É um filme com valores de direção - não de produção - espetaculares.

Eu deveria acrescentar que sua linha de diálogo final - "Mamãe, quando eu for um gato, vou conseguir comer biscoitos de gato?" - dita por uma garotinha que não vimos até aquele momento, provocou perplexidade. "Tudo no filme é fiel ao romance de Gally." Depois, acrescenta sem nenhuma incitação: "Incluindo aquela fala final, que provocou tanta especulação. Mas porque é um filme, e não um romance, o impacto será com certeza muito diferente." Em última instância, é essa perversa e datada fidelidade às suas fontes (muito refrescantes, como uma porção de coisas datadas) que distingue a obra de Resnais dos filmes dos que se ocupam com coisas que se tornaram clichês da imaginação. Tomem-se os quadrinhos. Quando, de uma imagem para a seguinte, o fundo muda de amarelo para azul, para preto, o leitor o aceita como uma convenção genérica. Quando Resnais introduz um truque idêntico em Ervas Daninhas, o efeito é deliciosamente desorientador.

"Gosto de surpreender como cineasta, assim com gosto de ser surpreendido como espectador. E, você sabe, o diretor é o primeiro espectador de seu filme. Quando Gautier e eu decidimos que as novelas gráficas de Will Eisner seriam um fator determinante no "visual" de Ervas Daninhas, nenhum de nós tinha ideia do resultado. Foi só quando vi os copiões que soube que tipo de filme estávamos fazendo." Uma última pergunta. Alguma vez ele rodaria um filme realista? "Não é que eu não faria, é que não conseguiria", diz ele, modesto até o fim. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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