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Eu farei falta?

Da minha parte, sinceramente, quero que me esqueçam por completo no futuro

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 03h00

A frase do título é perigosa. Tenho inimigos e os mais empenhados no ódio chegam até a ler o título do que eu escrevo. Já imagino que responderiam com “nenhuma” ou outro dito irônico. Ficarão surpresos: a crônica, que será lida até o fim por olhares mais benevolentes, concorda com meus detratores. 

A pergunta é existencial. Eu a fiz, uma vez, vendo uma excelente palestra do meu amigo Mario Sergio Cortella. Depois, li o livro dele: Viver em Paz para Morrer em Paz, se Você não Existisse, que Falta Faria? (ed. Planeta). Como sempre, o filósofo traz grandes ideias, citações e perguntas inquietantes. Aprendo muito.

Não sintetizarei o livro do londrinense. Pensarei em outra direção. Fernando Pessoa, tratando do tema do suicídio, fez o poema Se te Queres Matar. É um texto brilhante que procura estimular o amor pela vida com... diminuição da importância do viver. No fundo, ele quer diminuir o foco de importância que pode engatilhar desilusão. Em outras palavras: pode ser que, por vezes, a tristeza diante da avaliação da vida decorra de um sentido que deveríamos ser mais extraordinários, com feitos intensos e uma alegria quase de Instagram. O poema desarma, pela ironia, o sentido de importância que pode preexistir à decepção. Explico-me: eu me considero insubstituível? Minha morte lançaria o mundo no caos e na dor? Bem, isso nada diz do momento atual. O luto futuro por mim não me alegra hoje e nada explica do momento que vivo. O argumento é fraco para que eu me anime. Mais: se pessoas do porte de um Einstein ou de um Gandhi morreram e tudo seguiu normalmente, seria excessiva presunção imaginar que eu, menos do que eles (muito menos), provocaria uma comoção superior. Revisitemos Pessoa: “Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... Sem ti correrá tudo sem ti. Talvez seja pior para outros existires que matares-te... Talvez peses mais durando, que deixando de durar...”.

Já ouvi alguém irritado aí: “Leandro, eu sustento pessoas, faço coisas importantes, eu farei falta”. Sim, minha querida leitora. Sim, meu estimado leitor. Como eu, seu passamento será sentido por aqueles que: a) dependem do seu trabalho; b) contam com sua proteção; c) têm alguma estima por você. No fim do mês, sua ausência será muito forte. Os boletos por vencer serão suas maiores carpideiras. Claro, se você pode, um bom seguro de vida vai diminuir a dor de todos. Um extraordinário seguro vai transformar lágrimas em sorrisos. E, mesmo se não houver heranças, as coisas se ajeitam em alguns meses. Chico foi mais direto e cantou que mesmo o malandro é substituível e morre sozinho: Vai terminar moribundo / Com um pouco de paciência/ No fim da fila do fundo / Da previdência / Parte tranquilo, ó irmão/ Descansa na paz de Deus/ Deixaste casa e pensão / Só para os teus/ A criançada chorando / Tua mulher vai suar / Pra botar outro malandro / No teu lugar.

E a parte afetiva? O pior político que você possa imaginar, o mais execrável homem público do presente ou do passado, teve quem o amasse. Há uma mãe zelosa, uma esposa dedicada, filhos diletos: até os canalhas são pranteados por alguém. Lembre-se: antes de alguém ser filho da p... aquele ser foi filho. Sim, haverá pranto por algum tempo. Pessoas boas, porventura, despertem um sentimento intenso de falta por muitos anos, porém, fato óbvio: aquele que sente a dor continua vivendo, comendo, tomando banho e trabalhando. Nenhuma falta parece impedir a existência dos enlutados. Amei meu pai e minha mãe com zelo. Senti a morte deles como uma catástrofe. Continuei trabalhando, escrevendo, estudando, amando e me irritando com o mundo. O que isso quer dizer: minha vida seguiu, como a de milhões de órfãos. Não existem lágrimas pela sua trisavó. Desaparecerão por nós, igualmente. 

Sim, eu faria falta e... ela seria superada. Minha ausência no futuro não responde à pergunta do momento em curso. Talvez o melhor seja pensar em que falta a vida me faria. Se eu conseguir responder a isso, posso pensar em como viver, como andar com protagonismo. No fundo, a questão principal é sobre a vida em mim agora, não o que eu provocarei quando ela tiver se esvaído. Como viver, como enfrentar problemas, como ser uma pessoa inteira vivo e não uma ausência pungente na morte. É a pergunta do príncipe Hamlet: “Será que é mais nobre sofrer na alma as pedradas e os flechaços da cruel fortuna ou pegar em armas e enfrentar este mar de sofrimentos e assim pôr-lhes um termo?” (Hamlet. Ato 3, cena 1. tradução de Elvio Funck. Movimento-Edunisc). Para quem se interessa pela dúvida do príncipe, ele também reclama na “morosidade da lei e a insolência dos que têm cargos”. 

Que intensidade darei a minha resposta ao Hamlet? Que vida plena tentarei levar, indiferente, como creio, a quaisquer faltas que eu possa despertar quando partir? Da minha parte, sinceramente, quero que me esqueçam por completo no futuro. Não me interessa o vazio futuro, apego-me à plenitude presente. Quero fazer falta hoje, no inverno da nossa desesperança, quero tomar a fundo a taça da vida e o afeto de quem é importante. Quero ler agora, ser agora, amar enquanto estou vivo. Depois? Irrelevante: não escutarei mais choros ou risadas. 

Leiam o livro do Cortella, assistam às palestras dele sobre o tema, aprofundem o Hamlet e, entre uma coisa e outra, pensem em quanta vida existe hoje. É mais útil do que a falta futura. A vida de agora precisa de esperança.

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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Mario Sergio Cortella

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