''Eu estava saturado da política, disso tudo''

Jabor conta por que retornou ao tema da família em A Suprema Felicidade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Na continuação da entrevista, Arnaldo Jabor fala de arte, vida, política e A Suprema Felicidade.

O filme tem sido comparado a Amarcord, mas o Amarcord brasileiro quem fez foi Edgar Navarro, em Eu Me Lembro. Teu filme tem outro percurso - eu gostaria de me lembrar. Que tal?

Foi com esse espírito que o fiz. O Rio da minha infância é um lugar meio mítico e eu não vinculo A Suprema Felicidade a nenhum grande acontecimento, exceto, talvez, algumas referências a futebol. Existe a fascinação pelos EUA, pela música americana, uma coisa da época. Aquilo não é invenção.

Cacá Diegues diz que os diretores do Cinema Novo pertencem a uma geração que amava e queria entender o Brasil. É o que se lê nas entrelinhas da história da família, não?

Quando comecei a pensar no filme que queria fazer, estava saturado da política, dos políticos, dessa m.... toda. E se a Dilma (Roussef) ganhar? Nossa democracia vai acabar no chavismo? Não quis falar de política nem de História para tentar ser universal. Fellini matou essa charada há muito tempo. Dizia que a única forma de objetividade que conhecia era ser subjetivo. Foi o que fiz e por isso A Suprema Felicidade tem resquícios dos meus outros filmes. Tudo Bem, que considero meu melhor filme, era sobre a família invadida pelo mundo, A Suprema Felicidade é sobre a família indo para o mundo. A chave é o avô, que considero o melhor papel do (Marco) Nanini. Ele representa a liberdade. Paulinho, que seria a minha geração, se olha no espelho do avô e, no fim, descobre que o tempo do sonho, da fantasia acabou e ele tem de ir à luta.

Hilda Santiago, que faz a seleção do Festival do Rio, sente que a safra deste ano está menos cínica e busca uma saída para o fim das utopias. Teu filme vai por aí?

Quando fiz A Opinião Pública e, depois, Tudo Bem, queria falar da classe média e do País fechado do regime militar que começava a se abrir, como aquela casa em reforma. Sinto que as vivências de hoje estão muito próximas das expectativas dos anos 1950, mas ninguém fala disso. Eu estou falando, porra. Por isso o filme tem a citação do Drummond: "As coisas findas, mais do que as lindas, ficarão." Ciúme, solidão, desejo.

É um filme sobre a fome de amor e não é realista. Começa um tom acima. É uma coisa que exige grandes atores. Como reuniu este elenco?

Tem gente do meio que viu e me diz - o filme é tão realista. Mas ele não é. O elenco envolveu risco, sorte, tudo o que você possa imaginar. Eu comecei a ver esses personagens. Busquei os atores que se encaixavam. O Nanini, a Mariana, a Elke Maravilha, o Michel (Melamed). Procurava o meu Paulinho. Entrevistei um monte de garotos do Rio, muitos jovens talentosos, mas a maioria era de marombados, como se fossem para o elenco de Malhação. O Jayme (Matarazzo) tinha a fragilidade que me interessava.

O final traz a história dos anos 1950 para hoje, mas as cenas que ficam são a de Paulinho dizendo que não quer ser como os pais e o monólogo da mãe...

Quando a Mariana, como se estivesse falando para o marido, diz que o problema deles foi o excesso de amor? São as minhas favoritas, também. A Mariana toca no nervo. Não estou falando da grande História, mas de pessoas e ela expressa essa coisa que me interessa, o desespero do amor, que também estava lá atrás, no Eu Sei Que Vou Te Amar. Não é intencional. Essas coisas vêm, quando você vê estão no papel, na tela. A fala do avô também é maravilhosa. Não adianta perseguir a felicidade. É melhor ser alegre.

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