Imagem Fábio Porchat
Colunista
Fábio Porchat
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Eu estava lá

Eu estava lá. Vou poder dizer para os meus netos que eu vi quatro gols em seis minutos. Eu cantei o hino a capela e chorei emocionado ao ver mais de 50 mil pessoas entoando aquelas frases poderosas que eu aprendi ainda criança na minha escola. Eu acreditei também. Mesmo sabendo que seria impossível, algo dentro de mim me dizia que era possível. Algo dentro de mim estava completamente enganado.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2014 | 02h06

Eu notei que alguma coisa estava errada quando começou o jogo e ao meu redor, nas arquibancadas, a torcida não estava nervosa, ansiosa, roendo unha. As pessoas riam, como se fosse um amistoso Brasil e Albânia. Estavam todos cantando, aplaudindo, mas não parecia semifinal de Copa do Mundo.

Talvez estivéssemos confiantes demais. Essa Copa tá comprada pra gente. Quando começou a passar pelas nossas cabeças aquele rolo compressor alemão, as pessoas começaram a se olhar e a se perguntar: Pode isso, Arnaldo? Tem na regra que pode fazer cinco gols em 29 minutos? Entre o quarto e o quinto gol eu fui ao banheiro e ouvi de algumas pessoas que lavavam as mãos: quatro? Mas não tava três? Tava. O pior é que tava. E quando eu voltei pro meu lugar, cinco! Ué, mas não tava quatro? E tava seis e tava sete.

Foi logo em seguida do quinto gol que a torcida começou a gritar "Ei, Dilma, vai tomar no c...!" E depois "Ei, Fifa, vai tomar no c...!". E aí foi a vez do Fred, da seleção, e quando eu dei por mim, alguns torcedores brasileiros estavam se batendo, aos berros, como se a culpa fosse de alguém ali, e a torcida toda se virou para trás para acompanhar a briga, que estava muito mais interessante do que o jogo, visto que na "briga" lá no gramado só o Brasil apanhava. Uma moça na minha frente puxou um coro de "Eu acredito", e tomou uma bronca de um grupo de torcedores que começou a xingá-la.

Começaram a apontar para mim e a me xingar dizendo que a culpa era minha, que eu tinha dado azar para o time, que eu tinha que ir embora dali agora, que eu era um filho da p... e que eu era um babaca. Depois eu li que o Marcelo Adnet tomou um chute nas costas, do nada, e que um torcedor alemão ficou surdo ao tomar um soco enquanto comemorava um gol. E em 30 minutos de jogo, eu vi, diante dos meus olhos, o brasileiro voltar a ser brasileiro, sair daquele estado anestésico em que a Copa o havia colocado e se transformar no animal irracional que frequenta estádios regularmente.

As pessoas estavam tão atordoadas quanto nossos jogadores. A máquina alemã passou em cima não de 11, mas de 200 milhões de brasileiros. Eu estava lá, e fiquei com vergonha do que eu vi. No campo e fora dele. Esse é o nosso retrato, do futebol brasileiro e da nossa sociedade. Pena. Que venha 2018.

E-mail: fabio.porchat@estadao.com

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.