Eu, entre parêntesis

Este texto está entre parêntesis. Isso. Passei as últimas semanas escrevendo sobre memórias de infância, bancando uma espécie de "Proust de classe média" e hoje faço uma pausa para meditação: devo ou não continuar essa viagem 'para dentro'?

O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2011 | 03h07

Afinal, que tenho para descobrir e revelar senão detritos de lembranças, que talvez não iluminem verdade alguma? Que estranho procedimento - ficar garimpando irrelevâncias do passado em um Brasil tão brutalmente presente, onde tudo grita, onde se exibem 'verdades' escandalosamente paralisadas.

Que vão pensar de mim? Imagino o le itor: "Será que ele está querendo se exibir, bancar o 'culto'? Como ousa querer ser 'artístico', neste mundo digital, em que a superficialidade da criação multidirecional e sem autores virou um cânone estético?".

Fiquei até com sentimento de culpa, pois ousei ser um pobre 'proustiano' em vez de criticar, por exemplo, a carantonha gargalhante de Carlos Lupi, o atual retrato escarrado da desgraça brasileira.

Mas, na vida que levo, comentando política, fiquei ultimamente com desejo de tocar em alguma coisa relevante, alguma coisa que (pareça) 'real' e que (pareça) revelar o mistério inalcançável da existência (oh, esperança inútil...).

Proust viveu uma época conturbada como a nossa: nacionalismos que deram na Primeira Guerra Mundial, o surgimento do antissemitismo que explodiu no caso Dreyfus, a lenta formação de uma tragédia que ia se desencadear no nazismo e suas consequências. Como nós, ele viveu à beira de catástrofes anunciadas - qual serão as nossas?

Então, ele se trancou no quarto e partiu para a epopeia de 'irrelevâncias' que guardassem verdades profundas sobre a sociedade francesa (e humana). No turbilhão de acontecimentos terríveis, ele se refugiou para escrever e salvar-se pela beleza e arte.

Do meu canto, diante de tantas 'certezas' modernas, também quero voltar-me para as 'coisas vagas' de que falava Valéry, as 'coisas ausentes', sem as quais é impossível viver. E as 'coisas vagas' talvez estejam em nossa mínima experiência pessoal.

Contudo, a narrativa subjetivista pode ser uma expressão de banalidade, que só pode ser evitada se problematizarmos a representação do 'eu' e a própria noção de identidade, nos obrigando a retroceder para fora de nossa experiência comum - como escreveu há 6 meses Alcir Pécora, analisando a literatura autocomplacente de hoje e fechando com a sentença fatal: "Atitude resolve o problema do roqueiro, mas não resolve a questão da literatura".

Ou, como prescreve Paulo Henriques Britto num poema excepcional: "No poema moderno, é sempre nítida uma tensão entre a necessidade de exprimir-se uma subjetividade numa personalíssima voz lírica e, de outro lado, a consciência crítica de um sujeito que se inventa e se evade, ao mesmo tempo ressaltando o que há de falso em si próprio - uma postura cínica, talvez, porém honesta, pois de boa-fé o autor desconstrói seu artifício, desmistifica-se para o leitor-irmão".

É isso aí. Tão forte é a 'desumanização' da 'tecnocultura' multidirecional, tão intrincado é o mundo pós-ideológico, que os artistas buscam ínfimas certezas sobre o que nos resta de 'humano'.

O leitor torcerá talvez o nariz, irritado com meu papo meio 'cabeça': "Mas, afinal, qual é essa de fazer como esse tal de Proust, que dizem que era veado?".

Respondo que o tal de Proust encetou uma tarefa de trágica impossibilidade - atingir o 'real'. No entanto, fez uma compilação profunda das minúcias psicológicas da sociedade burguesa e aristocrática, salvou nosso rico delírio inconsciente, salvou nossa humana loucura contra o duro racionalismo que deu na Segunda Guerra. Que imensa coragem! Que solidão! O que fez esse homem ficar à margem da vida, analisando a frágil insanidade que nos define, ele, uma bicha solitária em pleno preconceito dos anos 10, ele, que transformou a própria 'anomalia' em arte total, ele que escreveu uma "Ilíada" interior, existencial, sem fim nem começo, da infância até a morte num trajeto circular e recorrente.

Como Cézanne, igualou os homens à natureza, misturando sujeitos e objetos, examinando em detalhes desde os salões de duques e príncipes até irisados matizes de uma corola, desde o brilho das flores nos bosques até o tremor dos cílios da vaidade, dos lábios vorazes da glória mundana até a dentadura brutal do rancor - o esgar da inveja, o desespero da solidão sexual nos bordeis de sadomasoquistas, a crueldade dos amores, o ciúme como tortura desejada, tudo em uma sociedade se contorcendo sob a luz negra da Primeira Guerra, Paris em pânico, com viciados sodomizando-se no breu dos túneis do metrô, sob as bombas dos aviões alemães, a bravura sem prêmio de soldados, a covardia de duques arrogantes, o horror do caso Dreyfus, dividindo a sociedade em antissemitas e tolerantes. Ele analisava o ridículo com compaixão e sem se excluir, ele, que tudo via com a mente implacável de um Homero das irrelevâncias, mas também com o olho feminino e atento tanto para o vermelho Carpaccio das sedas da duquesa de Guermantes como para o azul Veronese de um robe de Fortuny.

Proust fez a geometria das emoções, descrevendo ciúmes, amores, inveja, hipocrisia, com a nitidez de um teorema, com a limpidez de um mapa de geógrafo. Irritava-se quando diziam que ele era um microscópio dos detalhes, pois, ao contrário, queria descobrir leis, regras fixas que resumissem a estrutura dos comportamentos.

E fez isso imolando a vida à arte, querendo deixar algum vestígio no Tempo, pensando não em leitores que o aprovassem mas, generosamente, em criar "leitores de si mesmos" (como ele escreveu).

Esta é a sensação de vazio que me toma ao ver o mundo tão cheio de acontecimentos bombásticos, mas cada vez mais longe do 'humano' originário.

Daí, meu desejo de virar-me para dentro, para saber: o que sobrou de mim?

Continuarei esta viagem interior, esta minissérie sobre mim mesmo? Não sei. Aguardem os próximos capítulos. Ou não...

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