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Arnaldo Jabor
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Eu e Frank Sinatra

Semana passada foi meu aniversário. E descobri que Frank Sinatra nasceu no mesmo dia que eu, 12 de dezembro, aniversário também de homens ilustres como Ludwig Van Beethoven, do escritor Gustave Flaubert e do meu amigo e rival "Bagrinho", campeão de "embaixadinhas" na praia. Quando eu nasci, o Frank Sinatra estava estreando no Paramount Theatre em Nova York, com os brotinhos histéricos querendo comê-lo vivo, entre lágrimas de paixão.

ARNALDO JABOR, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2013 | 02h08

Ele faria 98 anos. Quando fui morar nos USA, numa cidadezinha da Flórida, Sinatra moldava minha personalidade adolescente. Nessa época, ele se recuperava do alucinado casamento com a deslumbrante Ava Gardner, e estava lançando seus discos mais 'swinging', com orquestrações do grande Nelson Riddle para a Capitol.

Eu já era seu fã desde que ele se separou da Ava Gardner. Logo depois, ela veio ao Rio e quis 'dar' para um cantor da Rádio Nacional que, apavorado, brochou e ela quebrou o quarto todo do hotel. Naquele tempo, as estrelas vinham ao Brasil quebrar hotéis. Orson Welles quebrou o Copa, Ava quebrou o Glória e nós babávamos de orgulho: "Fulano veio aqui e arrebentou tudo!", exultávamos, como bons colonizados.

"Eu não brocharia!", bradou de fronte alta o mestre Bené, o pipoqueiro, meu professor de sexo. E arrematou em português castiço: "O que me dói é sabê-las mal comidas!".

Pois bem, quando eu chego aos USA, eu era o rapaz perfeito para 'não fazer' sucesso na América. Magro, lendo poesia, não combinava com aqueles delinquentes juvenis que estavam na moda, com cabelos à Elvis, jaquetas de couro, facas de mola ('switch-blades'), que eles usavam no doce esporte das porradas. Eu vi que precisava arranjar uma personalidade. E foi o Frank. Sua inesquecível briga com Ernest Borgnine em A Um Passo da Eternidade, quando o magro soldadinho arrebenta uma cadeira na cabeça do sargentão fortíssimo, me marcou a alma. Passei a ostentar um frio distanciamento, uma falsa fleuma, imitando o jeito do meu ídolo. Fascinava-me a tranquilidade que ele emprestava às suas personagens no cinema. Lembro-me de seu olhar calmo, puro, azul, em Young at Heart, um olhar de coragem e desencanto, com uma interpretação sóbria que fugia dos trejeitos neuróticos do Actor's Studio. Eu não gostava dele em papéis mais trêfegos, como em On the Town. Eu o queria triste, como eu, desolado, com a capa nos ombros, gravata aberta, cigarro entre os dedos. Com os delinquentes juvenis que me cercavam na 'soda fountain' isso funcionou razoavelmente, pois os garotões me achavam um estranho 'nerd' útil, já que eu lhes dava generosa 'cola' em 'spelling', pois soletrava melhor que eles, engasgados nas palavras de raiz latina.

Já com as meninas, meu tipo funcionou menos. Tive três namoradas: Emily, Brenda e Melinda. Elas se impressionavam com meu mistério de estrangeiro, minha aparente frieza de macho vivido, um 'scent' de Humphrey Bogart que eu também soubera acrescentar a meus gestos, o que no Brasil me valeria o apodo de "mascarado", charme comum nos anos 50, descrito por esse termo em desuso, mas muito útil para nomear contemporâneos. Com as meninas, eu fazia um sucesso inicial e logo depois perdia pontos, devido à minha vocação para virgem romântico, que se apaixonava com facilidade. Emily (a ruiva que andava a cavalo) me 'descurtiu', quando eu cantei I Got You Under My Skin em seu ouvido. Melinda, loura aguada com seios enormes sob o 'sweater', perdeu o amor por mim quando me emocionei ao fim de An Affair to Remember, com Cary Grant e Deborah Kerr, no cine Matanzas. A linda Brenda (mais 'pirada', sexy e talvez não mais virgem - como saberei?), simplesmente sumiu com Warren Caputo, italiano forte e mau que tinha um carro 'hot rod' com pneus de trator. E eu me identifiquei com a famosa dor de corno de Sinatra, abandonado por Ava que tinha ido dar para um toureiro na Espanha e quebrar o hotel no Rio, não comida, para nossa vergonha.

Continuei seguindo o Frank Sinatra e fiquei deslumbrado quando estreou o Ocean's Eleven e surgiu o 'Rat Pack' ('a turminha dos ratos'), como eram chamados os alegres 'playboys' de Las Vegas: ele, Dean Martin, Joe Bishop, Sammy Davis e Peter Lawford. Era o máximo, aqueles gozadores de terninho e uísque na mão, sacaneando os americanos caretas dos 60.

Aí, o Frank já perdera aquela aura lírica do início e virara outro tipo de herói - o cínico comedor de: Lauren Bacall, Marilyn, Jill St. John, Kim Novak, Mia e muitas outras. Depois, ele se meteu em negócios com a Máfia. Muitos se desapontaram. Eu, não. Eu queria ser da 'gang' do Lucky Luciano e do Sam Giancana de Chicago, queria ter poder, ser mau com os inimigos e leal aos amigos. (Dizem que, quando o Woody Allen se separou da Mia Farrow, o Sinatra perguntou se ela queria que quebrassem as pernas dele.) Hoje, sei que nunca atingirei o paraíso de participar de uma festinha do 'rat pack' com todas aquelas mulheres boas ('broads') na suíte presidencial do Sands Hotel, em Vegas. Nunca chegarei lá.

Até o dia em que tive - aí sim - uma séria decepção, melhor dizendo, uma ferida narcísica incurável. Foi quando Sinatra preferiu Tom Jobim a mim. Ele conseguira o que eu tanto queria na vida. Chamado a Los Angeles pelo telefone do bar Veloso, Tom privou com ele e apareceu naquelas imagens que me gelaram a alma, dando gargalhadas e tocando violão no estúdio de gravação. Que felicidade naquelas fotos - os dois lindos fazendo música. Tão grande foi minha inveja que, quando Sinatra veio ao Brasil, eu não fui ao Maracanã. Ninguém notou minha ausência, mas eu não fui e vi na televisão, depois, o que eu tinha perdido. Era tarde demais. Nunca mais eu veria Frank Sinatra em carne e osso, cantando The Lady Is a Tramp, como no imortal Pal Joey.

E hoje, só me resta esta vida sem as luzes de Las Vegas. E no meu aniversário pensei: se até o Frank Sinatra morreu, que será de mim?

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