Ettore Scola, carpinteiro da imagem

Homenageado em Turim, grande cineasta italiano confirma sua decisão de encerrar a carreira cinematográfica

CÍNTIA BERTOLINO, ESPECIAL PARA O ESTADO, TURIM, ITÁLIA, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2012 | 02h10

Aos 81 anos, o cineasta italiano Ettore Scola considera sua carreira encerrada. Mas, ao que tudo indica, não se deixa facilmente uma vida dedicada ao cinema. Especialmente quando se trata do grande roteirista e diretor, responsável por preciosidades da filmografia italiana como Aquele Que Sabe Viver (1962), Nós Que nos Amávamos Tanto (1974) e Um Dia Muito Especial (1977).

Scola foi homenageado no fim de semana no Torino Film Festival. Além dele, Ken Loach deveria ter recebido o Gran Premio Torino. Deveria, porque o cineasta inglês recusou a honraria em solidariedade às condições dos trabalhadores do Museu do Cinema de Torino, parceiro do festival. "Somos amigos, mas achei a atitude de Loach um tanto estúpida. Esse tipo de paternalismo não basta. Não é disso que o operário em dificuldade precisa. É necessário entender o problema para depois tentar ajudar", disse Scola ao lado do diretor do festival, o cineasta Gianni Amelio.

"Turim é minha cidade de adoção. Viria ao festival, mesmo se não fosse receber prêmio nenhum", disse, para em seguida gracejar: "Olhe, ainda dá tempo de economizar com o prêmio. Até porque minha casa é um museu de horrores. Tanta estatueta feia...", brincou, arrancando risos.

Avesso a entrevistas, Scola conversou com jornalistas antes da premiação e fez uma mea-culpa. "Não gosto de falar de mim. Falemos o menos possível de mim. Não porque tenho algo a esconder, mas porque acho tedioso. O que já fiz, o que já conheço, dou como superado", disse.

Bem-humorado, lembrou o início de carreira como roteirista. "A comédia italiana não era grande em si, tinha tanto filme ruim, mas ali havia um método de trabalho, uma paixão, um interesse pelo país. Claro, no pós-guerra o país era um desastre, as feridas estavam abertas, mas havia uma vontade de participar, de realizar algo." Sobre o atual estado do cinema italiano, identificou o desamor como o principal problema. "Se não se ama a Itália, acho difícil fazer um bom filme italiano. É uma questão delicada, porque neste momento a Itália não é amável. Não há solidariedade, não há heroísmo. A crise do cinema está ligada a uma crise de consciência social."

Contou que seus filmes nascem não com imagens, mas com palavras: "Penso primeiramente em palavras. Depois delas surge a prefiguração das imagens. Sempre parti da página. Ali buscava o estilo, a pesquisa, a escolha de adjetivo a forma de colorir a frase. Mais tarde, quando me tornei diretor, ficou fácil encontrar nas frases a indicação de direção. Não foi um trauma. Descrevo com precisão a atmosfera, expressão, qual emoção quero transmitir".

Gianni Amelio revelou que il maestro está trabalhando em um roteiro "magnífico" e rogou a ele para levar o projeto adiante.

Ao apelo do colega, Scola, não quis comentar o projeto, mas retrucou com lirismo: "Sinto-me como um carpinteiro que por 50 anos fez móveis belíssimos e conhece muito bem o tipo de madeira que deve usar para cada objeto, mas simplesmente não tem mais forças para isso. O cinema demanda energia física, criatividade. Fui jornalista, ghost writer, roteirista e a direção sempre foi para mim o ofício mais cansativo e tedioso de todos. Há cinco anos sei que já não tenho a energia necessária para isso".

Tentando justificar sua decisão de afastar-se do cinema, Scola lembrou o fim de carreira melancólico de Vittorio de Sica (1901-1974), que, atolado em dívidas de jogo, se comprometia com projetos duvidosos assinados em mesas de cassino. A triste anedota, no entanto, não arrefeceu a argumentação de Amelio: "Se via que os últimos filmes de De Sica não tinham outro objetivo que fazer um pouco de dinheiro. Este não é o seu caso. Li o projeto e por isso te peço, não faça por você, faça por nós".

Scola não se deixou comover e, afiado, tascou: "Se você gosta tanto, pode dirigir".

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