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Etiqueta repaginada

Áudios no WhatsApp só podem ser feitos em emergência e devem ser rápidos. Pense antes de falar

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2022 | 03h00

Sente-se direito! Pegue o garfo com a mão esquerda. Não grite. Espere os outros se servirem. Agradeça. Em algum momento da sua vida existiu alguma frase similar dirigida a você. Deu certo? 

O processo de “domesticação” de corpos e de almas é o esforço civilizador que, por vezes, se expressa na “pequena ética”, a etiqueta. Norbert Elias analisou o esforço. Ainda existem cursos no campo das boas maneiras. A internet apresenta influencers no campo da luta contra a inconveniência social. Nada posso ou desejo acrescentar a eles. Vou falar da nova etiqueta.

A pandemia obriga a oferecer desinfetante de mãos em casa como um novo tipo de água benta que se usa antes de entrar em espaços sagrados. Regra pétrea de gentileza: o álcool em gel das visitas não pode ser do tipo “gosmento”, daquele que nunca sai das mãos e ao lavar, horas depois, você ainda possui uma pátina pegajosa. Gafe! Erro grave. Você será cancelado! Cuidou da boa safra do vinho ou das flores? Não se esqueça de verificar o álcool em gel

Os gêneros sempre foram muito variados. A cultura de outrora os reduzia e sugeria uma simplificação que atendia mais a ouvidos conservadores do que ao mundo real. O mesmo com pronomes de tratamento. Masculino e feminino são um começo, nunca o quadro total. Uma pessoa na sua casa se anuncia não binária? Pergunte com gentileza como ela quer ser tratada. Você detesta isso? Sem problema. A regra mais sagrada da etiqueta é nunca constranger o hóspede. Isso não mudou. Humilhar alguém é a grosseria imperdoável. Você não é obrigada/obrigado/obrigade a gostar. “Não aceito de jeito nenhum!” Sem problema. Nunca receba pessoas! 

Falei de desinfetante de mãos e de gênero. Novidades no nosso mundo líquido. Existe outro ponto para distinguir gente educada de grosseira: áudios no WhatsApp. Só podem ser feitos em emergência e devem ser muito rápidos. Pense antes de falar. Evite longas fórmulas de tratamento: “Bom dia! Então, eu queria desejar uma semana muito boa para você e também para sua família e vou aproveitar para lembrar a reunião...” Gente tosca que confunde áudio com podcast causou o avanço tecnológico de ouvir em velocidade avançada. Há 50 anos alguém educado não eructava em público. Escarrar é gafe imensa. Flatar causa condenação civil e religiosa. Áudio está na mesma categoria de um flato de voz... Seja uma pessoa educada. Tenha esperança, porém, sem áudios. 

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