Ética e diversidade cultural

Na América Latina recém-republicana e na África pós-colonial o cosmopolitismo ganha evidência como postura crítica em fins, respectivamente, do século 19 e do século 20. A função e o significado dessa militância podem ser aferidos nos escritos de intelectuais latino-americanos que se manifestam contra os nacionalismos provincianos e de pensadores africanos que se insurgem hoje contra a tomada de poder universal pelos fundamentalistas. O brasileiro Joaquim Nabuco esclareceu sua posição ideológica em Minha Formação (1900). O ganense/britânico Kwane Anthony Appiah (n. 1954) resume com brilho a própria postura filosófica na conferência Mi Cosmopolitismo (Katz, 2008). Se o primeiro se inspira no ideário kantiano, sucintamente levantado em coluna anterior, o segundo emerge da agenda multicultural que, ao final do século 20, ganha foros de nobreza nos arraiais universitários. Assinale-se que ambos expõem a teoria pela escrita autobiográfica.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

O cosmopolitismo de Appiah é dele por ter sido gerado em terra africana e em casamento abençoado, embora disparatado. É filho de mãe britânica e anglicana, descendente de normandos, e de pai ganense e metodista, da etnia axânti. Batizado em igreja metodista, Appiah estuda em escolas anglicanas. Saint George é a igreja da mãe, no entanto o corpo dela será velado na catedral metodista. A cidade onde nasce o pai, Kumasi, "é poliglota e multicultural: um lugar aberto ao mundo". Por ter sido educado nos confins do império britânico, o pai "se formou no estudo dos clássicos; amava o latim". A Bíblia figurava ao lado das obras de Cícero e de Marco Aurélio, filósofos estoicos formados na escola de Diógenes, o primeiro a se proclamar "cidadão do mundo" (kosmou polites). A expressão é metafórica, pois os cidadãos formam um Estado nacional e não há Estado mundial a que pertencer.

Os pais levam o filho a se enveredar pela "abertura onde se instalam gente e culturas que estão além dos limites estreitos em que foram criados".

Impregnado pelo multiculturalismo doméstico, o futuro professor de filosofia direciona estudos e pesquisa por um dos ideais do estoicismo - o cosmopolitismo. Dele extrai sua concepção multiculturalista, recheando-a com os ideais do Iluminismo europeu, com o projeto de paz perpétua, defendido por Kant, e com o nacionalismo romântico explorado por Herder. Na efervescência da globalização econômica, que excita a diáspora dos povos periféricos, o cosmopolitismo se faz necessário por ter abraçado o amplo leque da legítima diversidade humana. Seu ideário se apresenta em três vertentes. 1. Não necessitamos de um governo mundial único. 2. Devemos preocupar-nos pela sorte de todos os seres humanos, tanto os da nossa sociedade como os das outras. 3. Temos muito a ganhar nas conversações que atravessam as diferenças.

O cosmopolitismo atual exorta o cidadão à reflexão ética, embora ganhe corpo com o nacionalismo. Não é alternativa, é complemento, já que as diferentes comunidades humanas têm o direito de viver de acordo com as próprias normas. Apresenta-se como universalidade mais diferença. Ainda a Diógenes remonta o elogio da tolerância como respeito às predileções de outra pessoa e da humildade em relação ao próprio conhecimento. Pluralidade e falibilidade encaminham e balizam a "conversação cosmopolita", que passa por entre barreiras culturais, políticas, sociais, econômicas e religiosas. A conversação não visa à conversão absoluta de um ou do outro falante; seu propósito, afirma Appiah, é o aprendizado, além do ensino, é a escuta, além da fala. A conversação global é também uma metáfora. E o é porque só podemos conversar com os milhões de habitantes do planeta através da antropologia e da história, da literatura, do cinema e das notícias veiculadas pelos jornais, rádio, televisão e internet.

Observa Appiah que talvez sejam necessárias ideias que beiram a banalidade, porque os dois inimigos do cosmopolitismo estão por toda parte: os que negam a legitimidade da universalidade e os que negam a legitimidade da diferença. Aos dois ele acrescenta os que compartem a crença pela universalidade, sem simpatia pela diferença. São os novos fundamentalistas. Religiosos, eles acreditam que para todos os homens "só há uma maneira correta de viver e que toda diferença deve reduzir-se aos detalhes". Tal universalismo se expressa na uniformidade. Unam-se a nós e seremos todos irmãos e irmãs. Appiah discorda e subscreve Olivier Roy que, em Globalized Islam: The Search for a New Ummah (2004), demonstra que se pode falar da harmonização ("compatibilidade") do cosmopolitismo tanto com o cristianismo quanto com o islamismo. Roy escreve a respeito do último: "A globalização é uma boa oportunidade para dissociar o Islã de qualquer cultura dada e proporcionar um modelo que possa funcionar além de qualquer cultura estabelecida".

A harmonização das religiões universais com o cosmopolitismo passa pelo pluralismo, esclarece Appiah. E afirma: "Os cosmopolitas pensam que existem muitos valores segundo os quais vale a pena viver e que não é possível viver de acordo com todos eles. Como consequência, abrigamos a esperança e a expectativa de que diversas pessoas e sociedades modelem valores diferentes". Nossa falibilidade implica que, ao contrário dos fundamentalistas, aceitemos nosso saber como imperfeito e provisório e a ser revisto à luz de nova evidência. Os atuais cosmopolitas creem na verdade universal, ainda que tenham menos certeza de tê-la encontrado. A guiá-los não está o ceticismo, mas a convicção realista de que a verdade é difícil de ser encontrada. Conclui: "Não aprendi o cosmopolitismo na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas em Gana: meu país natal".

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