Eternas canções de amor

Marília Pêra canta Herivelto Martins, 25 anos depois de encarnar Dalva

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h11

Marília Pêra conheceu Herivelto Martins em 1987. Estava em cartaz com A Estrela Dalva, musical em que dava nova voz à cantora-musa do compositor, e o viu diversas vezes na plateia. Acostumado à voz perfeita de sua intérprete maior, ele chegou a levar um diapasão para testá-la em cena. "Aprovada", a atriz então foi apresentada a Lurdes Torelly, a aeromoça por quem Herivelto deixara a cantora décadas antes, a seus filhos, frequentou a casa da família.

Passados 25 anos, Marília revisita seu repertório. Herivelto Como Conheci, que estreou quinta-feira no recém-inaugurado Teatro Net Rio-Thereza Rachel, é baseado no livro homônimo composto por cartas e bilhetes do começo do relacionamento do casal organizado pela atriz Yaçanã Martins, filha deles, com o amigo Cacau Hygino. "Guardei cada papelzinho, foto. Minha mãe escondeu as cartas e queria que fossem queimadas, mas não tive coragem", conta.

Com direção de Claudio Botelho, espetáculo marca as comemorações pelo centenário de Herivelto (foi em janeiro) e as duas décadas de sua morte - coincidentemente, a de Dalva também faz data redonda: 40 anos em agosto.

Quem conhece o triângulo amoroso do ponto de vista dos dois vértices famosos agora tem o ângulo mudado. Marília conta a trajetória dos dois, do momento em que o compositor abordou Lurdes com um bilhete em um avião, às brigas pelo ciúme exagerado de Herivelto, resolvidas com cada música apaixonada feita para a amada. A resistência de Lurdes a aceitar um homem casado, o enredo que incluía cartas anônimas, a paixão derramada descrita em música e letra. Uma ligação que em 44 anos não desbotou, ao contrário do que diz a letra de Camisola do Dia.

Os textos originais - Marília interpretando e Claudio lendo em off - dão voz aos dois personagens. "A mesma boca que beijei ontem hoje me manda embora", lamentava Herivelto. "Um dia morrerei desse mal. Foi feliz quem morreu de amor." São palavras de uma época em que "todos se entregavam, saíam sangrando. Um exagero, mas era tudo verdade", diz Marília.

Resultado de um mês e meio de ensaio, a encenação cativa pela despretensão. Marília é derramada em Dois Corações, teatral em Culpe-me, cômica nas desconhecidas Amélia da Praça Onze e Desculpa de Ocasião. Experiente em musicais, ela ainda não se considera cantora. "Sou um instrumento para a personagem."

O diretor Claudio Botelho contou com a pesquisa musical de Alfredo Del-Penho (compositor, cantor e ator do elenco de dois sucessos anteriores, Sassaricando e É Com Esse Que Eu Vou), e sua seleção de mais de 200 composições de Herivelto. Os dois também trabalharam juntos na série da Globo Dalva e Herivelto: Uma Canção de Amor, exibida dois anos atrás, Botelho dirigindo os números musicais; Del-Penho como consultor e ator.

"Selecionamos 22 músicas. Onde elas estariam se não estivessem nesse espetáculo? Em Nova York a gente sai de um teatro onde tem mil pessoas vendo um musical de Gershwin e entra em outro em que há mais mil pessoas vendo Cole Porter. Isso deveria ser repetido com Noel Rosa, Cartola...", conta o diretor.

Acompanhada de dois músicos (violão, piano e acordeom), Marília tem o coro do público nos clássicos Ave Maria no Morro, Segredo e Praça Onze. Soam como inéditas, por outro lado, as músicas que fizeram sucesso nos anos 30, 40 e 50, mas não foram mais regravadas depois de passar por vozes como as de Dalva, Francisco Alves, Carmen Miranda, Linda Batista, Nelson Gonçalves e Ângela Maria.

Marília Pêra estava em falta com os palcos - a última vez foi em 2008, Gloriosa, um musical também dirigido por Claudio Botelho. "Comecei no teatro novinha, fazia três, quatro peças por ano. Ficar quatro anos sem fazer foi uma novidade. No teatro tenho mais autonomia."

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