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Eterna vingança de Tieta

Inspirada em Jorge Amado, novela de 1989 volta em DVD

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h11

Antes mesmo de Avenida Brasil, o tema da vingança já mobilizara a audiência de uma telenovela - e também com grande sucesso. Exibida em 1989, Tieta acompanhou a saga da personagem principal que, expulsa de sua cidade natal pelo pai, influenciado por intrigas da irmã mais velha, retorna a Santana do Agreste anos depois para mostrar que deu a volta por cima.

Interpretada por atores inspirados, como Betty Faria (Tieta) e Joana Fomm (Perpétua), a novela escrita por Aguinaldo Silva baseou-se na obra de Jorge Amado e chega agora em DVD, com uma caixa com 11 discos e quase 40 horas de duração, lançamento da Globo Marcas. Comparando-se o romance e a versão televisiva, é possível constatar a necessidade do trabalho de recriação.

"Quando comecei a ler o livro, pensei: 'Meu Deus, isso dá no máximo uma minissérie de 30 capítulos'", conta Aguinaldo Silva, autor da novela ao lado de Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzson. "E comecei a fazer anotações sobre personagens que, no livro, eram apenas citados, mas aos quais eu podia dar 'carne e osso', dar história e trama."

O resultado foi o surgimento de uma série de personagens pitorescos, que logo caíram no gosto popular. A começar por Tieta que, além do desejo de vingança, vive um tórrido romance com o sobrinho e seminarista Ricardo (Cássio Gabus Mendes), filho de sua rancorosa irmã, Perpétua. A atuação de Joana Fomm, aliás, tornou-se uma das referências da novela: sempre de luto e de guarda-chuva à mão, irascível e conservadora, ela guardava no armário uma misteriosa caixa branca. Inicialmente insignificante, o objeto ganhou importância por conta da suspeita criada pelo público de que ali estava preservado o órgão sexual de seu falecido marido. "Mas a novela terminou sem que se soubesse o que existia dentro da caixa de Perpétua", diverte-se Aguinaldo Silva.

A novela também se notabilizou pelos bordões que identificavam alguns personagens, como "Mistééééério" (Dona Milu), "Nos trinques" (Timóteo), "Upla Lá Lá" (Modesto Pires) e "Techau" (Tonha).

Também determinadas cenas tornaram-se antológicas. "A volta de Tieta foi impactante", relembra Ricardo Linhares. "No primeiro capítulo, mostrávamos ela, jovenzinha, sendo expulsa da cidade. Tieta madura demorava vários capítulos para aparecer. Criamos uma grande expectativa, alimentada em todos os capítulos, sobre a personagem que morava em São Paulo. E quando Tieta finalmente voltou a Santana do Agreste foi um momento impactante. Mais do que o arcaico e o progresso (que Jorge Amado desenvolve melhor em Gabriela, com Ramiro Bastos e Mundinho Falcão), o confronto maior, do meu ponto de vista, foi entre a repressão sexual e a liberdade."

Segundo Linhares, o pai Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos), no passado, e, principalmente Perpétua, ao longo de toda a novela, eram reprimidos e repressores. Tieta era a mulher livre, dona do seu corpo e da sua sexualidade. "Tanto o pai quanto a irmã não aceitavam isso e tentavam domá-la. Mas Tieta não aceitava cabresto. O grande embate moral da novela foi entre as duas irmãs. Tieta, dona de bordel em São Paulo, livre e autêntica, e a beata hipócrita Perpétua", observa o autor, lembrando que o ponto de partida do livro de Jorge Amado remete a A Visita da Velha Senhora, do escritor e dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt: uma mulher, agora rica, volta à empobrecida cidadezinha, da qual fora expulsa na juventude, para acertar contas com seus algozes do passado. "Mas é nessa ode à liberdade que as duas obras se diferenciam."

Apesar de exibida em uma época marcada pela retomada democrática (voltaram, por exemplo, as eleições presidenciais depois de quase 30 anos), Linhares conta que alguns cuidados foram necessários na adaptação: "Por conta do horário da novela e dos ecos da censura, foi preciso amenizar a sexualidade fogosa e mais explícita do livro por uma comédia de costumes maliciosa".

Mesmo assim, como acontecia nos programas humorísticos em que o duplo sentido fazia alusões políticas, Tieta representava um desabafo depois de uma longa ditadura militar. Além de tratar de temas então proibidos, como hipocrisia e vingança, a novela representava uma metáfora sobre a volta da liberdade de expressão na novela brasileira - basta lembrar que, em 1975, na véspera de sua estreia, Roque Santeiro não chegou a ser exibida por determinação da censura.

Em Tieta, a metáfora torna-se significativa em uma cena - quando Tieta (interpretada por Claudia Ohana na primeira fase) é expulsa da casa pelo pai, ele arranca aquele dia do calendário e diz: "Faz de conta que esse dia nunca aconteceu". Aquele dia, no entanto, foi 13 de dezembro de 1968, a data exata em que foi promulgado o AI-5, ato institucional que caçou os direitos civis e tornou ainda mais sombrio o governo militar.

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